O passeio
Emmanuel Mirdad
Não abro o zíper. Só me resta imaginar. E a porta do cubículo está fechada; não há outro acesso. O vizinho, vazio, expõe que o espaço é enfeitado com lantejoulas, bordados, meia-luz colorida e odores exóticos, promovidos como afrodisíacos. São oito cubículos, localizados na parte mais discreta e restrita da casa, proibidos a voyeurs. Soube que certos clientes, classificados como “Refinados”, desses que usufruem o melhor sem anunciar e exibir os rótulos, pressionaram a administradora da casa. Rapidamente, a Dona T mandou fabricar os cubículos ocultos, em que só cabem dois, onde o calor sufoca e coordena a intensidade das violações e gritos. Também ouvi falar que alguns desses clientes diferenciados se utilizam do espaço para fazer práticas criminosas com adolescentes, mas eu nunca presenciei. O único “Refinado” com o qual, um dia, cruzei pelo caminho era um senhor, de cabelos brancos, que parecia com o meu médico cardiologista.
Hoje é quarta-feira, primeiro dia de expediente na casa de entretenimento adulto violeTa. Há poucos usuários, acredito, e o primeiro que vejo é um homem frágil: chamo-o de “Tímido”, que só transborda à face os seus desejos se for assegurado por um colo do universo paralelo. Esse tipo de gente também sente a ânsia eterna por uma outra estação, e são reféns da angústia de se podar, a soterrar as vontades sob credos, fantasias e demais vícios-fuga, a transferir o câncer interno a um agente nocivo e demoníaco, teoricamente externo.
Antes de circular pela violeTa, vou tomar uma no bar. O garçom me informa que “53 anos-bancário-casado”, o consumidor de novatas, soube da chegada de Rosa, da interiorana Monte Santo, e pagou muito caro para ser o senhor da estreia. Do balcão, degustamos os gritos agudos da morena, originados num quarto ali próximo.
Ainda no bar, revejo os dois gays que só se pegam dentro da violeTa: “Jambo” e “Baixinho”. Velhos, carnes em tensão muscular, espasmos, a completar o percurso das suas vidas na calada do proibido. Dona T sabe do risco que corre ao afrontar a macheza da maioria dos seus clientes; por isso, permite o acesso de gays apenas na quarta-feira. Ainda assim, sei que a administradora estuda o acréscimo de dias liberados para o público que costuma consumir os itens mais caros do cardápio.
Desço a lateral esquerda, ando pelo corredor amadeirado, com divisórias diversas; nos compartimentos, diferentes buracos, formatos de camas e acessórios. No terceiro desses, contrariado por não ter a plateia que consideraria como suficiente, um jovem robusto pênis apronta, raivoso, grosso e úmido, a entupir o cu da pequena Barbarete, como se esbagaçasse a cauda do animal mais vagabundo. E o dono, um ser que baba e berra, promove a mensagem “Deus nunca vai me reconhecer!” nos intervalos dos berros. É a sua cachaça; com a Bíblia atirada junto às roupas, “Pastorzinho” se explode na mistura da tara com a liturgia.
Na pista de dança, Sônia se apresenta. Codinome: “Boca de Ouro”. Travesti de curvas magistrais, masturba com os seus lábios molhados o velho “Barão”, padrinho da casa — mesmo com a atual posição política imprópria aos seus títulos e roubalheiras —, que trouxe o filho mais novo, fruto tardio de passeios na idade lupina, para ser iniciado. O velho anda insatisfeito com os trejeitos e os cabelos arrepiados e coloridos que o “Rebentinho” desfila. Resolveu, então, sublimar o seu sadismo com os serviços bem pagos de Li Chi.
A técnica invade o palco. Alguns diamantes calcinha adentro. Ela pega as pedrinhas e introduz. Chinesa fio terra, a profissional mais disposta de todas. Livra-se de Sônia com uma sutil empurrada, e senta no velho, a testar o instrumento gasto. Eu, que sempre rezo antes das refeições, tremo. A cauda da raposa se agita, quer ferir as veias. Genuinamente acrobata, laça o pescoço do “Barão”, a acariciar a respiração de acordo com o limite que ele suporta. À asfixia programada, logo o velho explode em gozo e risadas e alguns tapas brutos, desviados e revidados na mesma porrada.
Li Chi. Pequenina, ágil e afiada. Com uma ordem seca do “Barão”, acua o “Rebentinho”. Circula, ritmicamente precisa, em análise. O filho mais novo, encolhido em si, caracol de medo, mal esbugalha os olhos quando ela aplica o bote. Bruta. Pega, espreme e parte. Munida de dedos, dobra o “Rebentinho” de quatro, lasca a bermuda moderninha e invade. O mais novo choraminga e, com poucas dedadas depois, derrama o seu gozo no lençol. O velho “Barão” confirma a crença das futricas alheias e, com uma sonora risada, arriba-se do trono, escorraça Li Chi num solavanco, alisa os fundilhos lisinhos e bem cuidados da sua cria.
Endurece-se.
*
Agora, é a porta de saída que se apresenta. O meu percurso termina. Dona T se aproxima, contente, pois eu sempre pago caro pelo passaporte das noites em que busco o espetáculo. Entretanto, antes de sair, baixo a cabeça, afasto a calça e a cueca, e olho o desgosto. Queria tanto que fosse, ao menos, normal, quiçá maior; mas é tão minúsculo, atrofiado, ausente, pobre homem que sou.
Condenado a apenas passear pela casa.
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