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Vingança (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Vingança
Emmanuel Mirdad

          — Devagar! — advirto.

          Aquele é um ser de olhos esbugalhados e tamanho aterrador, bizarro encontro genético de iguarias circenses, dotado do safo esquema “la garantía soy yo”, exposto à minha obstinação. Típico oito ou oitenta, prossigo, na cadeira de rodas, conduzido por um serviçal. Ordeno:

          — Empurre, vamos!

          Derramar. É tão apto! Basta se encostar no balcão de alguma bodega, que os copos, garrafas ou até mesmo o balcão inteiro são arremessados ao chão, sem interferência da Lei de Murphy, eventuais escorregos etílicos ou disposição à baderna. O ser é falível: além do desastre das mãos crescidas por demais, falta-lhe o equilíbrio da sensatez, um bem fundamental para a civilização.

          Adepto dos gestos robóticos, a ordem mantida pela programação responsável dos espaços, o garçom-faxineiro acreano faz ecoar os seus resmungos, doídos:

          — De novo, grandão?

          Acolhido no canto, bem na quina preferida dos amantes, pedi ovos mexidos, dois. O garçom anota e retorna ao balcão, rápido, para não abusar da vergonha exposta. Mas quem se doeu pela cena? No bar e lanchonete, além de mim e do meu serviçal, apenas um bêbado remanescente da noite de ontem. Nenhum de nós reclama. O grandão? Paga o prejuízo e parte, de um jeito devagar. Os ovos não chegarão a tempo. Prossigo.

          — Devagar! — chamo a atenção, de novo.

          Quero seguir os passos daquele ser no mundo, só para ver como estou. Devagar. E as rodas a relinchar, rua abaixo. “Fala, grandão, beleza?” “E aí, braço, firmô?” “Ô, grandão, cadê você, rapaz?” As respostas? Sorrisos afáveis, bobos, de um animal dócil. O ser é uma criatura. E eu? Derramar quis também, mas não possuíra, a tempo, os ovos mexidos. Continuo, munido com os meus diversos “Devagar!”, a seguir o meu carrasco.

          Será que ele viveria bem com ordens? Ou era, quem sabe, um oito ou oitenta, como eu? Não. O monstrengo é direto, compacto e uníssono. O existir tão cândido atiça um misto de ódio e encantamento nas pessoas. Às vezes, dão-lhe pães. E, por vezes, tapas, paus e pedras. Ser imenso, troncho, feio e deveras desengonçado não amedronta o bairro. Ao contrário; acolheram o monstrengo a serviço de bater e assoprar, infância tardia.

          O maldito homem não identificado, sem nome, desce a rua. São dois, na verdade. O que anda e o que segue. O grandão e eu. Ainda bem que, sorrindo para mim, ele não me averiguou. Dois dias atrás, quando se virou para catar centavos perdidos à toa, encontrou-se olho à fuça comigo. Travei. Ele apenas sorriu, o gesto de um completo imbecil. Ou será ironia? Enfiou as nicas no bolso e continuou à frente, sem nenhum método ou impulso em agir. Eu não tive tempo de pedregulhar, abestalhado pelo impacto do seu olhar na minha fuça. Contudo, tenho paciência. O mundo queima além da moda. Estagnei os bilhões de múltiplos anseios em um só: de longe, observo que o monstrengo se recolhe ao cafofo em que mora.

         Logo, logo, ele me paga.

*

         A semana está no meio. Duas já se passaram, e eu continuo hospedado numa maloca, com barba e cabelo postiços, boné e óculos escuros. As indagações crescentes dos vizinhos estão próximas a esgotar o prazo do meu disfarce. Preciso de só mais um pouco. Muito pouco.

         A maloca é mofada e quebradiça, mas é bem próxima ao cafofo do algoz. Por volta das seis horas da manhã, espio pela fresta e avisto uma sombra noir. Em contraluz, é ele que acorda e se arremessa à vida vazante; o som estapafúrdio dos latidos vira-latas confirma. Que comece mais uma andança!

         Ordeno a minha camisa e a cadeira. Quero estar perto do epicentro, de qualquer jeito. Hoje, muito mais próximo. Esse brinquedo dos habitantes será meu também. A grande escultura dos seres não pensantes, que atira brutalmente a sua vida à parte dos julgamentos, esbagaçando as noções pré-concebidas do que é a liberdade do outro. Um poeta inato, montanha sem nome. E eu, prosseguindo atrás.

         Dessa vez, munido de pólvora e chumbo.

*

         Vaso’eu frágil. Preso em uma cadeira com rodas. Essa doença não preexistente, que os meus genes nunca predispuseram ou codificaram. Antes, era único ser eu. Arrotava poder, sabia os métodos de “machomer” a mulher, era descolado e rico, ator de fama internacional, no auge. E, para atiçar a adoração, ficava nu, na praia, a ser fotografado, exposto e idolatrado. Tudo o que eu preparava tinha aquilo de bonito e popular, o ego e o encanto: romances e aventuras, amores meus. Antes de tudo, sempre o eu s¥u. Desembestada hemorragia em prol de mim mesmo. Até que o inconcebível aconteceu.

         Sexta temporada do mais visto e admirado seriado policial-ufológico norte-americano. O meu papel, notável para um latino-brasileiro: o sedutor coadjuvante que transa com a protagonista. A primeira cena do segundo episódio era uma externa, interferência interplanetária nas praias brasileiras — produtores gringos sempre buscam soluções mágicas no roteiro para apreciar as horas de folga no país tropical. O set estava montado, já havíamos refeito quatro vezes a mesma fala — a tal protagonista não conseguia se concentrar no abafo da tarde —, até que um pesado pedregulho resvalou nas minhas costas, atirado de um lugar desconhecido, como se caído dos céus ou arremessado por algum invejoso deus olímpico. Ninguém soube, ninguém viu, ninguém compreendeu. Coisas de um país tropical. Os produtores cancelaram a locação.

         O estrago foi-me quase fatal. Sobrevivi, mas como o pedregulho resvalara a minha coluna num frágil ponto específico, a sua fúria motora acabou-me; inexoravelmente destinado à cadeira de rodas, a minha carreira de galã do cinema foi abortada.

         Por quase um ano, uma custosa investigação particular conseguiu desvendar o enigmático algoz. Alcunha, endereço, fotos, referências. A angústia do anônimo se desfez. Já a sede, crispou-se, indissolúvel. Hoje, mais trágico que antes, prossigo, determinado a justiçar-me, atrás do grandão.

         Vingança.

*

         Um grupo de esquisitos leva o monstrengo para a quase deserta praia do pica-fumo. São nerds encenando uma live adaptada de clássicos do RPG. Figurinos, regras e diálogos recriam um mundo imaginário. O grandão adora, entrega-se com entusiasmo ao seu personagem; com um traje improvisado, representa um ogro, cujo poder é arremessar pedras. Cauteloso com os colegas quando atua nas lutas, imprime força extra no arremesso. Assim, o monstrengo apenas simula que atinge os heróis da história mágica. Mas os pedregulhos prosseguem, rápidos.

         — Rápido! — ordeno, enfático e contraditório.

         Os heróis se embrenham mato adentro. O ogro se esconde na “gruta” — uma pedra de médio porte, na boca do mar. Estou no colo do meu serviçal, a suar. Ele não consegue firmar o equilíbrio no chão fofo. Desabamos. O serviçal torce o tornozelo e geme, debatendo-se — parece que não se levantará tão cedo. Engulo umas garfadas de areia. Cuspo de vez e sigo a rastejar, visando à arma que parou longe com a queda. A zoada faz o ogro desentupir-se da “gruta”. Ele se aproxima, desconfiado, a grunhir. Tenho de pegar o revólver, rápido, rápido!

         O grandão está na minha frente. De cabeça em riste para cima, paraliso o impulso e tento não compreender os olhos mais cândidos que o sol já ilustrou. Com a arma em mãos, aponta para mim, um pouco afobado; quer devolver o que não lhe pertence. Não movo uma pálpebra. Próximo, o serviçal se espanta, levanta-se — como se nada o estivesse aleijando — e “pica a mula”, satisfeito pela heroica sobrevivência de si mesmo. Eu balbucio, a apontar para o revólver:

         — É meu!

         Ele me suspende do chão como se eu fosse um graveto. A sua mão é um alicate hidráulico, a comprimir a minha deficiência contra as leis da mecânica. O monstrengo me põe de pé, sustentando-me por baixo do sovaco esquerdo. E a candura se transforma numa indagação símia; estou brinquedo. Ele me devolve a arma. Encaro o grandão e sorrio. Ele também.

         Atiro à queima-olho, até esvaziar o tambor.

*

         Continuo de pé, encharcado de sangue e areia. Os buracos estão lá, todos, inclusive os talhados na cabeça. E o grandão continua sólido, em pé, a me segurar. Devagar, a sua mão percorre os furos e os jorros. Está surpreso. Enfia o dedo na broca embaixo do olho direito. Deformou o nariz e a boca também. Quer chorar, está doendo. Encara-me como se acabasse de se perder da mãe, na praia. E acaba de perder mesmo: a vida. Demora, mas a vida sempre se esvai, sangue afora. Falta ar. O monstrengo inspira forte e desaba de joelhos. Vou junto, com a expressão de um pai que castiga a imprudência da cria. A força do alicate afrouxa e o braço me larga. Vou junto; à areia, de novo. Largo o revólver e me ponho sentado, rápido. Pela segunda e última vez, o grandão inspira forte. Desta vez, de olhos fechados, doídos. Os joelhos cedem, e a tora do seu corpo, ao despencar, treme o chão fofo. Baque surdo, em cima das minhas pernas deficientes. Está morto, enfim, o meu carrasco.

         A brisa abranda o fedor, que começa a brotar. Muito sangue. Poças. Continuo de olhar fixo na cria, que acabo de talhar, esculpida a ferro e fogo. Consumo cada pedaço destroçado do ingênuo sucumbido, com um delicioso sorriso cínico, empunhado a meio lábio fechado. Eu, de ator a assassino, devagar, a divagar em pensamento.

         O silêncio da vingança preenche o espanto da moral.

         Estou imobilizado e preso pelo peso inerte da minha vítima.

         — E agora?

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