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Adonias Chumbo (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Adonias Chumbo
Emmanuel Mirdad

          Quinze assaltos e dois latrocínios em menos de vinte minutos. Uma suspeita de chacina na divisa do município. E a noite continua o seu percurso rumo ao dia. Da Central de Polícia, comunicam um sequestro: mulher, gente importante, do Poder Público, rica. E, na sequência, a declaração de fogo que provoca lágrimas na boca: a viatura do delegado Pedra 90, a perseguir os sequestradores, espatifara-se no poste. Os bandidos escaparam.

          O policial Adonias Chumbo e o seu comparsa lamentam o informe e relembram a premonição, comentada certa vez: o delegado, que não deveria dirigir a viatura e nunca foi bom em curvas, pior chapado, morreria no trânsito, algum dia — com o acidente, ainda não; está a penar na UTI, no quase. E os policiais? Apenas peças do tabuleiro, sem a mão do amor da tevê, a informar o sonho do bom salário. Os dois, com um pouco mais de quarenta anos, sentem-se desvalorizados; mesmo assim, de vez em quando, um lapso de sonho surge: “Será que algum dia iremos chegar ao topo?” A furar a cabeça para fora do limbo, o melhor que um deles conseguiu foi o contato de um amigo de infância, hoje secretário de Estado: uma improvável esperança de apadrinhar Adonias Chumbo. Promessas, vazias, rapidamente esquecidas.

          Um playboy veloz rasga o devaneio dos policiais. Mais um louco passeio vira-lata. Cavar, coçar, cheirar, vida de cão a favor das baleias robustas que enfeitam a elite da cidade. O rádio a pleno poderes, a encantar o imaginário NYPD. “Que nada! Quem vai perseguir o playboy é o coelho!” Adonias Chumbo é da terra do jeitinho, devagar e sempre, mas o Pedra 90 é o seu fiel; saía com a irmã do delegado há tempos, que cedia cerveja, churrasco e convites para o futebol aos domingos, tranquilo por encaminhar a última que restava na sua família para um cupincha, que nada saberia nem atrapalharia os negócios, como reza a cartilha.

          Pedra 90 queria a qualidade de vida da farinha no almoço; saudável engorda sem culpa, o que não é comentado, por medo da bala. A usar a patente como disfarce, protegia a empresa. Porém, por infelicidade do tédio, a selecionar algo para se entreter, o delegado resolveu perseguir os sequestradores e se acabou num poste. “Uma carreira na sua homenagem, cunhado, ao estímulo Santo Cru extremo, sem culpa!” — diversão para aplicar também no comparsa careta, hoje curioso para provar um pouco.

          “Hervaína” é o apelido que Adonias Chumbo botou no alimento, recém-chegado da Indonésia, ainda inédito na imprensa. Gosta disso, apelidar. Para o comparsa, ficciona:

          — Esse troço serra, na sua identidade, altíssimo percentual de confiança funerária! — Adonias Chumbo se vangloria de falar “bonito” quando está aditivado e se questiona como consegue: “Será que a chapação fornece um túnel, vidas passadas?”

          Um morto, ainda quente na ponte, pode esperar. A pilotar a viatura, Adonias Chumbo passa pilhado, reto que nem bala, acompanhado pelo comparsa, morangos inteiros a discutir “entrar ou sair?” nas quebradas da favela Principado de Wanderley, na função de resolver o sequestro, em nome do Pedra 90.

          — E aí, Chumbo, ojeagentequeremos mais que da outra vez, vú?

          Com a pose dos rappers estadunidenses, La Ele e Ximuqueca, irmãos do ilícito, bons de noticiário, querem negociar. Adonias Chumbo belisca várias cédulas falsas, apreendidas numa operação, dias atrás, e passa adiante, a empurrá-las no desleixo da confiança adquirida. Brada:

          — Algum de vocês tá sabeno quem são os caras que tão rodano de barão com uma deputada na carona?

          Após uma conferência superficial das cédulas, que gera uma breve tensão nos policiais, La Ele e Ximuqueca se mostram satisfeitos pelo maço de dinheiro na cor azul, com desenho do peixe garoupa no verso, e indicam apenas o local onde acontecerá o crime: na casa da deputada. Recusam-se a dedurar os sequestradores, porque a encomenda do crime é de gente graúda — assim ficaram sabendo. Adonias Chumbo aceita o que tem para hoje e agradece: do próximo corredor, faz uma carreira volumosa, com os melhores grãos fragmentados em um pó de cor azulada. Quatro homens, quatro narizes aspiradores. Tecados, os policiais partem, com bala na agulha, a querer vingar a infelicidade do delegado.

          La Ele tem uma reação alérgica à “hervaína”.

*

          A deputada sequestrada foi o grande fenômeno da eleição passada. Inicialmente acusada de ser uma prostituta de luxo, fantoche a serviço dos peixes grandes do feudo, surpreendeu os jornalistas com a sua campanha. Além de acompanhar o candidato a governador em diversos compromissos pelo Estado, ela percorreu quase todos os bairros miseráveis e de classe baixa da capital, a torrar verbas em cestas básicas, pequenas obras e melhorias, lavagens com pagode e cerveja dobrada e o mais inusitado: propostas bem fundamentadas, que nunca foram feitas antes.

          O fenômeno foi tanto, que ela conseguiu o apoio das mulheres e mães das comunidades, que poderiam tê-la rechaçado, por ser jovem e bonita. Armou-se da simpatia de gestos e abraços carinhosos, humor sempre alegre, fala suave, postura atenciosa às reclamações e pedidos mil. Figurou-se como uma irmã carismática ou uma filha graciosa, e não como uma rival.

          A imprensa caiu de joelhos à expressiva votação da candidata, tanto no interior quanto na capital — que foi decisiva na sua eleição. Feita deputada federal, com votos em vários “currais” — o candidato a governador, principal apoiador, também ganhou a eleição —, logo se envolveu num romance midiático com um certo senador galã, aprofundando-se nos tortuosos caminhos da política em Brasília, a preparar o próximo salto da carreira. Não demorou muito para que o sistema a enquadrasse na hegemonia real, longe da sua base. Das propostas, restou apenas o esquecimento progressivo dos eleitores.

          Desapareceu, como todos.

*

          Adonias Chumbo sabe onde é a residência da deputada na cidade. Meses atrás, recrutado pelo Pedra 90, teve que fazer um serviço de limpeza na casa da representante do povo. Um faxineiro, cujo nome ninguém se lembrava, mas a sua beleza era propagandeada pelas madames, foi espancado até a morte pelo hóspede mais notável da deputada, arvorado por uma tropa de seguranças: o senador galã, que estava bêbado e possesso, em mais uma crise de ciúmes.

          Um secretário de Estado foi acionado de madrugada, que mobilizou o seu homem de confiança, o delegado, que disponibilizou o seu operário: Adonias Chumbo tocou fogo no faxineiro à estrada da desova, e o pobre homem bonitão desapareceu feito mágica do opressor. Prevendo uma tendência sensacionalista do crime, o policial ainda teve que visitar a família do “pé-rapado” — como ele se referia ao morto. De forma amistosa, como Pedra 90 instruíra. Impôs o dogma:

          — Melhor vivo e calado que...

*

          A residência local da deputada é uma mansão, de vizinhança silenciosa, câmeras e com segurança armada a rondar em carros e a passeio, situada num condomínio de alto padrão, fenômeno de vendas. “Crise? Para quem?” Adonias Chumbo conduz a viatura pelas ruas. Investidores, exportadores, políticos, empresários, juízes, jogadores de futebol e fazendeiros. Toda essa gente ali, empalaciada no condomínio. E o carro importado da representante do povo, que fora usado pelos sequestradores, estacionado na porta da sua casa.

          Adonias Chumbo enumera: Como é que os bandidos passaram pela guarita? Onde estão os seguranças? Ninguém na rua. Ninguém na portaria. Há um conchavo acontecendo, ele pressente. Os policiais entram pelos fundos da mansão da deputada, de armas em punho, com poucas balas. Na sala, escutam os gritos represados de uma mulher, como se abafados por uma mordaça, a denunciar o desespero por ajuda, que descem pela escada, vindos do andar de cima. As socadas soam também, com força, ritmadas por estalos de tapas e xingamentos.

          “Otários!” Adonias Chumbo avista muito dinheiro e pó em cima da mesa. Maços e maços de cédulas azuis, com centenas de garoupas nos versos. Dessa vez, verdadeiras, “do povo brasileiro”, como ele apelida as notas, esparramadas de uma mala de couro. O policial nunca vira tanta dinheirama junta. E o pó? Alvíssimo, como as brancas nuvens do paraíso cristão.

          — Vidente destilado, vatapá esfera, detergente volátil! — o comparsa esbraveja o surreal, arria-se no sofá e apaga, a babar; não aguentou o tranco da “hervaína”.

          — Perfeito! Que dia pro careta ficar doidão!

          Adonias Chumbo carreia uma rota farta do pó, guarda o resto numa sacola de loja de departamento, embolsa as cédulas até nas meias e cuecas, arrasta a mala de couro e, antes de vazar, com toda a velocidade que poderia atingir, espalha uma boa quantidade de pó no comparsa. Ele acredita que, quando os sequestradores descerem para a sala, tratarão desses assuntos de “se alguém faz, alguém tem que pagar por isso” com o seu colega de trabalho. Isso se a polícia não chegar primeiro, pois o esquadrão especial age rápido nos casos que envolvem gente importante, do Estado — garantiu o plantonista, a atender a denúncia anônima feita por Adonias Chumbo, que conhece bem o costume desse esquadrão: executar bandidos e eventuais testemunhas.

          Antes de dar um sumiço no mundo, o policial decide visitar o cunhado Pedra 90 no hospital, sem saber das restrições de horário da UTI.

          — Vou levar umas flores.

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