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Um estudante e a escadaria
Emmanuel Mirdad
Deixei muitos pedaços de mim no cimento: o tanto que suei, os passos que gastei, as solas corroídas pela insistência. À frente da muralha de degraus, que serpenteia o caminho da Ondina à Federação, lamento: devido à infelicidade do meu itinerário acadêmico, nunca desço, apenas subo. Maldito percurso. O ônibus que me traz, larga-me longe. Dá-lhe paleta, andança desgraçada, quase sem sombra, até a Faculdade de Comunicação, onde estudo. É plano, ao menos. Entretanto, o ônibus que me leva ao trabalho exige que eu suba essa escadaria monstruosa, com o sol do meio-dia lascando no centro do cocuruto. E eu não vou reclamar do barro, porque esse ano tá sendo bom, pouco choveu. Quando o toró desaba, a lama escorre. Correnteza dos infernos, já derrubou muita gente: os coitados despencando, estabacando-se todos. Além da lama, o caos. Degraus quebrados, tortos, tronchos; ladrão, mato, tráfico, tentativa de estupro e histórias cabulosas, a maioria inventada, as piores, acobertadas. Dá medo subir. É escada, mas dá no céu ao inverso, eu acho. De tanto inverso.
Merda! Li no jornal da matéria de impresso. A minha reportagem nem saiu. Vou perder, o professor militante tá me perseguindo. E ainda faltam dois anos para terminar o curso. Que saco! Para que diabos escolhi Jornalismo? Ela é a culpada. Sempre me iludiu. “Você escreve bem, meu filho. Preciso falar com Jorge Amado pra te dar uma força.” Que nada! Ela nunca conheceu o velho. Não teria acesso a ele. Morreu, e eu só li o “Capitães da areia”. Bom livro, baianada. Depois, só Nietzsche e Sowell, entre outros. Preciso me gabaritar.
O tênis All Star é falsificado. O celular, com parcelas a perder de vista. Os óculos quadrados foi presente da vó. A mochila com desenhos artísticos está toda furada. E os colegas da faculdade me respeitam, sem saber. Ando na surdina, comento pouco nas rodas e sempre tenho uns livros de responsa no braço. Das bandas hype, só conheço o que rola no fone compartilhado. Sou um quebrado de grana.
Agora, no sol, com a cabeça arqueada para cima, a contemplar o monstro desafio serpente de concreto de todos os dias, desabafo: cansei. Eu é quem deveria sempre dizer: cansei. Moro longe, no subúrbio ferroviário. Duvido que algum dos meus colegas tenha ido ao meu bairro, bem diferente daquilo que se vende como a cidade em que moramos felizes e dançando. Isso não me importa. Eu não danço, não batuco, odeio futebol. Eu penso. Desejo estar no centro do poder, frequentar os bairros nobres. Não quero ficar à margem, ser peão. Não me considero um suburbano. Odeio. Às vezes, passo por perrengues, até de fome, mas tenho orgulho da minha paródia: a graça está em me forjar como eles, filhinhos de papai. Com muito esmero, faço parte dos que se diferenciam como “cults”. A merda é que, quando acabam as aulas, eles ficam estudando na biblioteca ou na sala reservada do programa de educação tutorial, assistem a filmes “de arte”, vão ao MAM, TCA, ICBA, entre outras siglas, ou apenas dormem em casa ou na varanda da Faculdade de Comunicação. E eu? Tenho de subir essa maldita escadaria e ir trabalhar. Cansei. E só posso dizer: cansei. Só dizer. Pois tenho de subir. Atrasado. Com fome, de novo. Hoje, não rolou o PF da cantina. Sem perder a pose, recorri ao mais rentável: dois salgados enroladinhos + um suco de 300 ml = seis horas de estágio + duas de trânsito. Três fragmentos suportam oito horas? Improvável, sim; impossível, jamais. Vou ter de aguentar. Ganho uma merreca, mas preciso. O gosto se molda ao que se pode pagar.
Começo a subir os degraus. Susto. A alça da mochila lasca de vez, e os livros despencam morro abaixo. Volto para buscar? Sim. A moça da biblioteca me dera o alerta: mais uma e serei punido. Puta que pariu! Haja suor. Caralho, essa terra é um inferno! Por que eu não nasci em Londres? Sinto isso, o meu espírito é europeu, don’t let me down. O desgraçado do Dickens é o que desaba mais longe; no passeio, tragicamente no início do suplício. A serpente vai me engolir duas vezes. E a mochila, inutilizada. Lixo. Ponho os livros debaixo dos braços. Sem levantar a fuça, prossigo. E brota, no meu rosto, um sorriso sem dentes, irônico. O esforço e o gargalho. Subir, subir, subir. E eu queria descer e descansar. Bobagem. Continuo a subir. É o que me resta; subir, ereto, nesse desafio rotineiro do homem vs morro.
Em qual dos barros o ser se desmancha primeiro?
*
Nem adianta correr. A aula está perdida. Encharcado de suor, desço do ônibus lotado. E o motorista arranca do ponto, na tora, a esmagar alguns braços na porta; promove um boliche de pobres coitados, que caem no chão, uma dureza. O sinal fecha. Atravesso. Calor, como sempre. Relaxo o passo e penso: seria uma boa filar as aulas que restam? O problema: ir para onde? Dinheiro contado, centavo por centavo. Zanzarei, então, qual zumbi? Não. Da última vez, fui interceptado e levei uns cascudos e tapões. Abordagem rotineira, polícia preta contra preto pobre. Taí algo que não vai mudar. Chega! Não vou me lamentar. Odeio essas queixas, chatíssimas! Não aturo os discursos modorrentos dos engajados, engodo que não funciona. Nada muda, como sempre. É melhor fingir que está tudo bem e continuar a viver o normal. O que interessa é garantir o que comer no meio e no final do dia. E tentar se manter a salvo de um tiro ou tortura. É mais ou menos por aí, o que importa, ao fim.
Sigo para a faculdade. Quero encontrar alguém interessante para discutir a nova revista do burburinho. Ontem, passei o olho na banca e só deu para ler um pouquinho. Tem mais texto do que a minha paciência suporta. Formato estranho, grande, ruim de manusear e segurar. Problema não. Comento assim mesmo, com uma propriedade fabulosa, coisa que todo mundo faz.
Pelo caminho, estranhas figuras, mundo estranho. O normal é estranho, não acha? Aliás, o que não é estranho? Na minha direção, aproxima-se um troncudo, de black power e camisa de central sindical, que distribui panfletos. Ele barra o meu passo com o braço e despacha um discurso pré-fabricado, que considero obsoleto e superado. O seu jeito é de ignorante e me chama de irmão de cor, de luta, o oprimido que agora se rebela contra o preconceito e a opressão. Convida: manifestação a se concentrar logo mais na Praça da Piedade. É a revolução. Sei. Penso: tapado de merda! Que irmão porra nenhuma! Eu formei as minhas opiniões baseado em várias fontes, e você só é mais um papagaio, massa de manobra. A minha cara fechada, sem resposta ou excitação, irrita o militante. Pergunta se eu não tenho a tal consciência negra — engraçado como eles sempre fazem questão de oprimir.
— A minha consciência é humana! — respondo, sem pegar o panfleto.
A rumada vem forte, sem dó. O chão é mesmo duro.
*
Retorno aos poucos, nos braços da caridade alheia. Presumo que sejam estudantes da mesma universidade federal de que faço parte. Brancos, que me ajudam. Não os conheço nem lhes devo nada. Estranho. Confesso que nunca vivenciei esse tipo de atenção, mas eu gosto de presenciar a contradição do senso comum. Na padaria, conseguem uma cadeira e água. Por sorte, tanto os óculos quanto os dentes não foram quebrados com a pancada e a queda, mas a gengiva e os lábios sangram. Papel higiênico no estanque e uma atenção generosa. Bebo água mineral de graça. Fico tímido, falo pouco. A boca incha e os minutos passam. Preciso ir para a aula, invento uma reunião de seminário. De pé, doído, agradeço, meio sem jeito. Os estudantes, legítimos camaradas, ainda me conseguem uma carona na entrada do campus.
Caridade. Nunca acreditei. Tem que haver interesse por trás, é óbvio. Mesmo depois do que aconteceu comigo, continuo pensando assim. Nada é gratuito, por boa-fé. Somos desgraçados demais para conceitos tão elevados e longínquos. Não dá.
Chego à faculdade, intervalo das aulas, e os meus queridos da “panelinha” em que habito me acolhem no círculo fechado. Agradam, acariciam, apoiam. Todos ficam transtornados com a agressividade do militante. Nenhum deles é negro. No refúgio dos meus pensamentos, lembro que passei no vestibular antes do sistema de cotas raciais e achei o máximo ter superado os estudantes de escola particular, eu, aluno das municipais e estaduais. E continuo com a opinião de que é muito mais divertido sentir o status boçal de ser aprovado por mérito próprio, sem subterfúgio. Eu sou um preto capaz, me engulam. O orgulho da minha raça é o orgulho que tenho de mim mesmo. Não me limito à casca de tudo que é comprimido. E vou sempre mais além. Conduzo a conversa para o assunto da nova revista. Os meus amigos rendem vários comentários. Cada um quer se mostrar mais do que o outro. Adoro! Divirto-me com a exposição de vaidade dos “cults”. Aproveito que eles estão a respeitar e celebrar o pouco que eu comento. A piedade ajuda; usufruo do conforto de ter sido vítima — confesso só aqui, pois costumo criticar os muitos casos de vitimismo por aí. Alguém adverte que o intervalo acabou. Ao levantar, deixo escapar um chiado de dor.
Desgraça. Por que o corpo não silenciou a chaga? É muito difícil lidar com o inchaço. Eis que surge a tal caridade escrota, que desconhecia o meu destino pós-aulas de todo dia, e que agora poderia ter a curiosidade saciada.
— Hoje te dou uma carona até em casa, viu? Mas é... Onde é que você mora mesmo?
Nocaute. Ninguém sabe responder. A curiosidade de um se espalha a todos feito doença de Carnaval. “É mesmo, você nunca disse onde mora”, o grupo me pressiona. Gaguejo qualquer coisa, estou em pânico. Alguém não me deixa escorrer pelo canto. Prensa-me com uma entonação maliciosa no final da pergunta. Já deveria desconfiar de algo, eu acho. E a quitação da cobrança se faz irremediável. Todos querem saber. Eu respondo, de vez, embolado com um rastrinho de sangue que vazou de repente, lábios abaixo, na camisa:
— Eu moro na Suburbana...
Silêncio. O constrangimento impera. A “panelinha” se despedaça aos poucos, um a um. Volto a sentar. Dessa vez, só. Escancarado. Desisto da aula. Quero sumir. Morro acima, a escadaria me engole. Desabo no meio do caminho. O inchaço dói muito. Ninguém vai me dar carona alguma. Não há gasolina e boa vontade suficiente que resista ao mal-estar burguês em transitar no subúrbio ferroviário.
Não há.
*
Mesmo sendo humilhado, não larguei a faculdade. Depois que os queridos da “panelinha” souberam da minha origem social, revelaram a sua canalhice. Escolheram a indiferença para me punir. O método mais eficaz. Não responderam aos meus chamados e apelos. O grupo passou a se dispersar quando eu aparecia. A sentença foi clara: limbo. Sem uma “panelinha”, sem ninguém.
Na faculdade, além do grupo dos “cults”, restam as patricinhas, os engajados, os maconheiros e os marombados, quase todos ricos, quase todos brancos ou morenos. Os pobres continuam camuflados. Os pretos continuam raros. E a faculdade é pública. Contudo, não estou reclamando, apenas constatando. Os membros das outras “panelinhas” já sabem da minha tragédia e se divertem também, a ressaltar a sua indiferença. Não tenho mais onde habitar. Um caminho seria abandonar o curso. Como suportar dois anos de desprezo e exclusão?
Eu consigo. Eu posso. Tenho muita fome. Preciso saciá-la todos os dias. Por ela, preciso ganhar o dinheiro que me faz sobreviver. Na minha casa, são dez pessoas, e é cada uma por si. O “bolo” se junta para dividir os custos e à custa da minha mãe. E, para manter a grana curta e suada que ganho, e continuar na caminhada, estágio primeiro, emprego (quem sabe) depois, preciso estar matriculado e cursando. É a única garantia tangível, além do parco talento para o jornalismo que eu tenho. Sinuca de bico.
Pingos pesados, grossos. Nuvem encorpada, densa, dessas que desabam na fuça, de repente. É o verão e as surpresas inconvenientes. Tome-lhe chuva, que encharca até a cueca. E nesse pedaço do caminho do campus em que estou, não há para onde fugir. Sem abrigo e guarda-chuva, o jeito é improvisar com a mochila, emprestada pela vizinha. Que molhe os livros, e não a minha cabeça! Corro. Paro. Não adianta. Penso na minha mãe. Do lugar que venho, desde cedo, todos aprendem a ter medo das chuvas. Qualquer excesso repentino, o barro desaba. E a cratera suga o pulso da vida e o patrimônio. Quem sobrevive, deve se perguntar: por que não fui junto? Não dá para aguentar uma vida mais miserável do que já se tem. Será mesmo? Duvido! Basta sentir que ainda respira. Basta ficar de pé. O instinto da sobrevivência dispara e impulsiona à luta. O que está em jogo é a urgência biológica. A fome tem que ser saciada. O resto vem a partir disso.
Próximo à faculdade, o toró estanca. Piada. Por conta de mais um atraso do ônibus, chego no horário do intervalo. Os colegas lotam os espaços, com os seus buchichos agrupados. Secos. De manhã cedo, não choveu. E quem chegou agora, protegido pelo teto dos carros, nem pingo fino levou. Sou o único pinto molhado. Ridículo e visível. Ponho a cabeça em riste e enfrento as críticas e as risadas. Sacanas. Deixam que eu suba as escadas para ler o que já sabem: o professor militante diz que está doente, não vai ter aula. Tenho que voltar pelo mesmo escárnio. Dessa vez, fico furioso. Vou abandonar essa desgraça!
Hipocrisia. Também tenho e sou. Em vez de berrar, compreendo. Tenha calma. Sorria, cinicamente. Perfeito. Decido aproveitar a raiva em outro alvoroço. Subo, rapidamente, a escadaria-serpente de todos os dias. É isso, sem despesas para ninguém. Chegarei mais cedo ao estágio e reforçarei a necessidade de trabalhar ali. A vaidade não existe se há fome. Tudo como dantes.
Aproveitando o acaso, a caminho do trampo, quebro para uma entoca de morro, ruela parecida com a minha. É onde fica um PF baratinho, numa portinhola, coisa de gueto. Descobri faz pouco tempo, à toa. Até o meu chefe come por lá! O expediente tá começando, e sou agraciado com o enorme prazer de comer um rango fresco, recém-saído do panelão. Cozido apimentado, farto e cheio de verdura. Que satisfação! Sustança da boa... Posso admirar os gringos, mas a comida tem que ser baiana.
Oxe!
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