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A jornada para escrever o romance oroboro baobá — Parte IV (2016)


oroboro baobá” é o meu primeiro romance. Escrevê-lo foi um laboratório, um curso, um aprendizado. No post de hoje, a 4ª parte da jornada de criação do “oroboro baobá”, com o relato do que aconteceu em 2016: a presença de Oxumaré na jornada; a ligação das partes masculinas e femininas do romance; crio a parte fantástica do romance, inventando as entidades e a divindade; Benivalda e Bartira e a saga dos seus ancestrais, MiwaMbambaMbira, Mkini, índios Maxakali, jornalista Sanfilippo, a questão Pataxó, a conexão das famílias Santos & Maxakali, e um monte de novidade nesse ano incrível para o romance; a Allée des Baobabs, o baobá Renala e o ritual em Madagascar; o goleiro é Montanha [adiós, Muralha!]; imponho duas restrições ao romance; presentes de Sarah Fernandes, Carlos Barbosa, Flávio Bustani e Mary del Priore; duas opções para a capa [pintura de Max Fonseca e foto de Nathália Miranda]; opções de Adélia Prado e Daniel Lima para a epígrafe; quero adaptar o romance para série com Gabriela Leite; duas versões de “oroboro baobá”; duas mudanças de título; um registro na Biblioteca Nacional; romance “Miwa — A nascente e a foz” pronto; e muito mais.

Em jan/16, lançamento de “Olhos abertos no escuro”. Foto: Sarah Fernandes

OROBORO BAOBÁ [12ª VERSÃO]

04 de janeiro, primeira segunda-feira de 2016, manhã. Recomeço o trabalho no romance “Uma porta fechada para o inútil”, com a meta de inscrevê-lo no Prêmio Sesc de Literatura 2016. Reescrevo o capítulo sobre Mudinho em Caraíva. Depois do almoço, junto esse bendito ao capítulo do dominó. Analiso: é melhor que o pataxó seja representado apenas pelo seu nome indígena. Quatro e vinte da tarde, modifico o nome para Burianã, e abandono definitivamente o Capitão da parte Caraíva.

Desde o sábado 02/01/16 que tô na função de selecionar textos dos melhores da piauí. Quero apresentar um projeto de antologia à revista, e começo a fazer esse trabalho bem agora, para embolar tudo. E a meta do Sesc, seu doido? Oxe! Só sei que na terça 05/01/16, revejo o capítulo sobre a origem do artilheiro, e modifico o seu nome para Marcelino, em consideração ao músico e pintor Marceleza de Castilho [ilustrador do meu livro “Abrupta sede” em 2010]; não quis mais que o nome do meu amigo fosse utilizado num personagem racista, símbolo da nossa elite criminosa.

Pronto. Acabou. Do nada, fecho a porta para um trabalho que avalio como inútil. Não tenho a data precisa, mas logo após essa terça [acredito que tenha sido no domingo 10/01/16, em mais um passeio na praça Ana Lúcia Magalhães com Sarah Fernandes], assumo que não vai dar tempo de concluir o romance até o prazo final de inscrição [12/02/16], e desisto de participar do Prêmio Sesc de Literatura 2016.

Assim como o 4º tratamento do roteiro, abandono o romance “Uma porta fechada para o inútil” [a 12ª versão de “oroboro baobá” fica incompleta — infelizmente não preservei o arquivo dessa versão, salvando a nova por cima].

Em junho, sai o resultado, e um escritor baiano ganha o prêmio que eu queria: Franklin Carvalho, com o seu romance “Céus e terra”.

OLHOS FECHADOS

Terça, 26 de janeiro de 2016, noite. No bar & restaurante San Pietro Tapas, rua Amazonas, 1252, Pituba [daria lugar a uma cantina em 2017], a editora Via Litterarum promove a noite de autógrafos do meu livro de contos “Olhos abertos no escuro”, após o lançamento cancelado na véspera em dezembro/2015.

Infelizmente, é um fracasso de público. Amigos queridos estão presentes, escritores e minha mãe também, mas muito, muito menos gente do que nos lançamentos de 2015 e 2014. Sinto-me um fracassado [não quero mais saber desse tipo de evento], embora celebre a presença de quem gentilmente fez questão de ir [Sarah Fernandes fez as fotos, veja aqui].

A presença do mestre Mayrant Gallo, homenageado do livro, no lançamento, mesmo de luto pela morte recente da sua amada Andréia, me emocionou muito! [escrevi aqui]. Foto: Sarah Fernandes

VERÃO COMO EDITOR

Chateado com a “profissão” de escritor, é tempo de editar. Além do trampo da Flica 2016 [inscrição nos editais da Oi e Coelba], invisto na organização da minha coleção de trechos que li [e publiquei no blog], editando-a no formato de livro em PDF [três volumes: “Leituras 2013”, “Leituras 2014” e “Leituras 2015”].

Porém, o “trabalho” principal nesse verão é com as coletâneas dos melhores textos da piauí, para celebrar os 10 anos da revista [fui assinante, de 2007 a 2016]. Entre janeiro e março, invisto 50 dias de trabalho para produzir os cinco originais de “revista piauí — Uma antologia literária”, com 175 textos selecionados de 140 autores em 84 edições da revista. Ufa! Haja garimpo! No dia seguinte ao término desse trampo, envio para o contato da piauí. Nada acontece. Trabalho jogado fora? Financeiramente, sim. Já para o meu acervo, uma beleza de arquivo [conheça a seleção no final desse post aqui].

Capa original de “A libélula e o urso — Cinza”, feita por Sarah Fernandes [desenho e design]

A LIBÉLULA E O URSO

Entre fevereiro e março, eu e Sarah Fernandes trabalhamos no nosso livro “A libélula e o urso — Cinza” [a proposta foi concebida no final de 2015]. Edito uma versão em PDF do livro [ficou bonita, gostei!], com 21 fotos em P&B [produzidas por Sarah em Salvador, Cachoeira, Lagarto (SE), São Paulo, Rio de Janeiro e BR-101 no Sul/BA, entre set/14 e fev/16] e 21 textos curtinhos [escritos por mim, entre set/15 e mar/16], cuja contracapa explica: “Reflexões fotográficas, a celebrar o encontro da doçura com a acidez, da leveza com a aridez, e do verde amor na cor cinza”. Envio para a Via Litterarum avaliar, mas com o fracasso de “Olhos abertos no escuro”, eu tô sem moral.

Em abril, a gente consegue uma reunião com Valéria Pergentino e Enéas Guerra, da editora Solisluna, que topam publicar o livro, financiado via crowdfunding, mas teríamos que produzir mais fotos e textos. Daria certo, mas... Faço merda: implodo a bela proposta em maio, graças a mais uma maluquice da minha cabeça.

“Deus dança”, foto de Sarah Fernandes em Cachoeira, durante a Flica 2015 (pg 14), e texto meu (pg 15) — que foi inserido, na íntegra, em “oroboro baobá”

SAD CHILD PICTURES

Cabô Leituras, cabô piauí, cabô libélula & urso. O que fazer? Retomar o romance? Nada. Volto para o cinema, rapá! Kuéin. Vi bons filmes nesse verão de 2016, como a obra-prima colombiana “O Abraço da Serpente”, e li muita coisa boa, como os contos de Marcia Denser, Marina Colasanti e Caio Fernando Abreu, e as crônicas da portuguesa Ana Cássia Rebelo. Não tem jeito: bate a vontade doida de adaptar!

Entre final de março [alegria para a Flica: ganhamos, pela 5ª (e última) vez, o edital nacional do Oi Futuro] e começo de abril, invisto 13 dias de trabalho para selecionar obras literárias & jornalísticas e elaborar 27 sinopses das suas adaptações para curtas de animação e longas de ficção. Para não ficar sem título, batizo o projeto de Sad Child Pictures [parou por aí].

Jornal Rascunho nº 192, abril de 2016 [a foto minha é de Sarah Fernandes]

MÃE, TÔ NO RASCUNHO!

Em fevereiro, o editor Rogério Pereira, do jornal literário Rascunho, um dos mais importantes do país, solicita-me o contato da Via Litterarum. Resultado: na edição de abril, nº 192, o Rascunho publica uma resenha de Clayton de Souza sobre o meu livro de contos “O grito do mar na noite”. SASSINHORA! MÃE, TÔ NO RASCUNHO! YEBA! Felizão por mais um silêncio rompido. Ufa!

PS: Fico tão grato que me torno assinante do jornal [até meados de 2019].

Pense numa alegria! Bom demais deixar de ser invisível! Foto: Sarah Fernandes. PS: Ao fundo, livros da poeta & professora Mônica Menezes

MURALHA HOMEM-MULHER

Terça, 12 de abril de 2016. Cabô as opções de trabalho além da Flica, forço-me a retomar o romance incompleto “Uma porta fechada para o inútil”. Já havia escrito tanto, porque abandonar esse trabalho? Sacudo a poeira e me jogo. No apê 703-B, revejo a abertura e separo o trecho ensaístico [Bahia pai canalha] do trecho com ação [pescadores]. Algumas novidades: descarto o parágrafo sobre o percurso do rio Caraíva, da nascente à foz, para poder enxugar e ter um clima melhor para o começo da ação no romance; escrevo o xodó “expõe a fratura”; crio o original do xodó “ao rosto, falta a evidência de um passado, o rastro das memórias dos vincos, os cortes e as pequenas imperfeições que marcam os capítulos do indivíduo na história” [cap. 2].


Na quinta 14/04/16, invisto quase sete horas de trabalho, a rever capítulos e a reestruturar a ordem. À noite, na hora do rush, engarrafamento no Rio Vermelho, estou no meu carro e... bingo! Um estalo acontece: Muralha é homem e mulher, corpo masculino e órgão sexual feminino. Yeba! Fico muito empolgado! Feliz, feliz! Agora, quero muito escrever! À noite, decido: vou retomar o título “Muralha” e resgatar os trechos da personagem Maria. Adiós, furiosa...

Sarah Fernandes fotografa no mirante de Serra Grande, fev/16

PRESENTES DE SARAH FERNANDES

Quarta, 13 de abril de 2016. Após rever mais um capítulo, vou encontrar Sarah Fernandes no apê em que ela morava, à noite. A fotógrafa oferece o seu presente ao romance: ela aceita lê-lo no meu celular, a cada capítulo que produzo. Será assim até que essa versão de “oroboro baobá” fique pronta, leitura quase toda feita no seu quarto, no Edf. Silverstone, na Pituba.

Um processo muito importante para mim, porque, além de ouvir as suas impressões e críticas [aprendi muito sobre o feminismo com ela, e isso me influenciou bastante nas escolhas do enredo e desenvolvimento de personagens], eu posso ler em outro dispositivo, e detectar erros e problemas, praticamente uma revisão editorial.

Trabalhar de dia, levar a produção para a leitura com Sarah à noite, anotar a mudanças e, no dia seguinte, efetuá-las no original. Um método que se repetirá até novembro, gravado na memória como um dos momentos mais especiais dessa jornada “oroboro baobá”.

E não foi só esse presente. Em novembro de 2015, ela não me deixou desistir do romance. E o seu apoio à minha carreira literária é total, em vários momentos, durante 2016 inteiro [foram muitos presentes]. Valeu, demais! Fico tão agradecido que, no sábado 23/04/16, a incluo, ao lado da minha mãe e irmã [+ memória do meu pai, Setaro e Hélio], creditada como “primeira leitora”, nas dedicatórias do romance.

Edf. Silverstone, na Pituba, via Google Street View. No apê dos escritores Mônica Menezes e Carlos Barbosa, 7º andar desse prédio, fiz muitas leituras do romance junto com Sarah Fernandes, que me ajudaram a melhorá-lo

PS: Algumas novidades do capítulo revisto hoje: escrevo o original de “Portas e janelas trancadas, pousada estranhamente vazia, sem funcionários e hóspedes. Falira?”; melhoro a dinâmica do diálogo entre compadres na padaria; retiro os documentos de Mudinho e, por isso, o que é mostrado ao cego é uma intimação da Justiça do Trabalho — Marinalvo é uma referência biográfica a uma prestadora de serviço que processou a minha família [cap. 4].


NOVO TÍTULO [8ª VEZ]

Havia uma gastura de “Uma porta fechada para o inútil”, culpado pela fase travada, sem inspiração. Resolvo na sexta, 15 de abril de 2016: modifico o título do romance de volta para “Muralha” [2ª vez]. Além de trabalhar no baba na aldeia [junto todas partes num capítulo só], recupero os onze capítulos da história de Maria para o original do romance [não na ordem da versão “Muralha: O goleiro imbatível”, e sim na proposta do 4º tratamento do roteiro: após toda a saga de Muralha, como uma investigação de Bip-bip], e desisto do rascunho de “A furiosa”.

Nessa sexta, também trabalho no capítulo do dominó + sobre Mudinho em Caraíva, e aproveito para fazer justiça à reescrita dessa análise do goleiro, feita em 04 de janeiro desse ano. Algumas novidades: escrevo os originais dos xodós “A impressão que provoca: em Alderico, que se move apenas para sobreviver e não se importa em planejar a carreira ou acumular bens; em Guilherme Cornélio, que não se interessa por uma relação afetiva porque não teme a solidão” e “Sem origem conhecida, nem planos revelados, Gigante existe no agora. Que é ontem e amanhã, hoje” [cap. 5].


PS: No trecho do dominó [cap. 5], escrevo o xodó “Como dizem na Bahia, ‘o cacau tá caindo’” e modifico o casal do toró — em vez dos paulistas racistas, um novo casal, gay, que não é racista [achei que tava passando pano nos escrotos, uma redenção forçada].


Foto de Marcondes Dourado em mar/16, da escultura de Oxalá de Tati Moreno [primo da minha mãe], no Dique do Tororó, Salvador. Assim que a vi no Facebook do fotógrafo, baixei-a e a coloquei como proteção de tela do meu celular [ficou por anos]. Muitas vezes, a olhei para me inspirar e harmonizar. A minha mãe é de Oxalá, um orixá que gosto muito.

MURALHA FANTÁSTICO

Sábado, 16 de abril de 2016, manhã. Estou no apê 703-B, e outro estalo se manifesta: Maria não pariu Muralha, e sim o encontrou, bebê, no rio. Bingo! Seja bem-vindo, xodó! Assumo, assim, que Muralha é um ser fantástico! Insiro a adoção no romance, outro xodó! Que maravilha! À tarde, para não me perder, vou lá onde estão os capítulos de Maria e escrevo um lembrete das mudanças a serem feitas. Aproveito e revejo logo os trechos de Muralha em seis capítulos, para verificar a coerência com o que irei escrever ainda.

“Em vez de culpar a escuridão, acenda a luz”, de Eckhart Tolle, selecionada, de novo, como epígrafe do meu romance. Acima, o trecho grifado pela minha mãe, Martha Anísia, do seu exemplar de “O despertar de uma nova consciência” (Sextante, 2007), traduzido por Henrique Monteiro

EPÍGRAFE [4ª ESCOLHA]

Ainda no sábado 16/04/16, faço acontecer uma casadinha: se o título “Uma porta fechada para o inútil” foi trocado, tenho que fazer o mesmo com a epígrafe; assim, o belo verso de Lívia Natália dá lugar à epígrafe de Eckhart Tolle, que retorna. No embalo, junto o capítulo da treta Marcelino vs Burianã [+ barco queimado] com o da saída de Mudinho de Caraíva — inclusive, escrevo novos trechos nesta parte, para fundamentar melhor a expulsão do vilarejo, e ainda insiro um parágrafo sobre as eleições 2010, para situar o período [segue abaixo, na versão final de nov/16, pois é o único arquivo que restou desse ano — será assim em todos os exemplos].


ABRIL NA FUNÇÃO

Retomo o projeto Orange Roots em abril, com novas gravações [começa na quarta 27/04/16], para ampliar o EP para o álbum “Fluid” [porém, na sexta 29/04/16, o contato gringo do meu sócio, sondado para parceria no EUA, não se empolga com o trabalho e pergunta: “cadê o hit?”]. Ainda esse mês, com a desistência de um curador externo, assumo sozinho a curadoria da Flica 2016 [e deixo o posto de coordenador de produção e logística, responsabilidade assumida pela sócia Icontent]. E, o que mais interessa, a produção do romance em abril é intensa [o trabalho é todo feito no home office do apê 703-B]; confere aê:

Segunda, 18/04/16 [08h e 50min | da manhã à noite] — Revejo três capítulos [o cap. 7, o 8, e as três partes iniciais do 10 — vou identificar com a numeração final dessa versão de nov/16, porque foram muitas mudanças durante o ano]. Algumas novidades: melhoro o texto sobre a origem de Marcelino; recalculo o tempo das gerações e troco o parentesco: não mais tataraneto, e sim bisneto do coronel [opção técnica, não biográfica]; crio os originais dos xodós “O coronel (...) convence profissionais a dedicarem as suas competências em prol da ampliação e manutenção do império de uma só família” e “Os homens, beneficiados por uma tradição que se empenham em manter, desenvolvem as carreiras no meio empresarial, na política, nos tribunais e na medicina, enquanto a maioria das mulheres cuida do lar e da família” — são xodós porque gosto da crítica que faço, não porque apoio essa conduta —; insiro um final que demonstre o nem aí de Mudinho para a opressão de Marcelino [cap. 7].


Crio que Marcelino banca a estrutura da festa de Paca, e não mais o pataxó e a sua família; insiro a informação “no masculino, com o verbo de ataque” sobre o baba; introduzo a referência ao goleiro russo Lev Yashin no romance; Paca não coloca mais o afrobeat para tocar na festa, e deixa de ser o “parabolicamará” — transfiro para o “pataxó que cuida das redes sociais da aldeia”; escrevo o super-xodó “até mesmo o imprevisto está previamente definido em alguma equação do divino, camuflada entre as probabilidades do caos”; faço uma “homenagem” ao clássico do samba de roda baiano: “uma cesta de ovos, setecentas galinhas”; crio o original de “Uma cisma o levara a descobrir um fenômeno do esporte. É preciso possuir, explorar e lucrar, portanto”; Marcelino dá um cala-boca em Carranca; reorganizo o acidente de [cap. 8].

PS: Empolgado, ainda invisto uma hora e meia nessa segundona hardwork para rever tudo que fiz, num horário incomum de trabalhar: das 22h às 23h20.


Terça, 19/04/16 [05h e 50min | da manhã à noite] — Formo um novo capítulo, juntando o 2 com o 1º parágrafo do 3 [parte “Camisa 23...” de 2015] + trechos de duas cenas do 4º tratamento [4ª e 5ª partes do cap. 10]. Algumas novidades: retomo o Amadô como nome do campeonato [tinha trocado no roteiro], mas corto todo o trecho em que um programa de TV o explicava [e introduzia Sanfilippo; ficou para mais à frente]; mexo na comissão técnica de Porto Seguro [o faz-tudo Bogus continua], a inserir o preparador físico e “fisioterapeuta” cubano Rodriguez, modificando o nome do médico Dr. Castro para Cristovão [uma “homenagem” ao escritor Cristovão Tezza], e o nome do preparador de goleiros Ferreira para Oliveira [achei mais a ver com a velhice e experiência do personagem] — roubei o nome do cego da padaria, que passou a se chamar Ferreira [me incomodava a pronúncia de “cegoliveira”]; crio que o dirigente da LAD é um ““cargo de aparências, pois o chefe é Marcelino, quem paga os salários e toma as decisões”, o que o reduz a “um office-boy, uma assinatura”; invento que Digo Cabral cobra de Mudinho uma reação ao racismo de Marcelino; assumo que o preparador atua também como auxiliar técnico, e insiro que ele se parece com “Mickey Goldmill, o treinador de Rocky Balboa”; troco o nome do “gato” de Mudinho para João Silva Barbosa, em “homenagem” ao meu padrinho João Silva [cap. 10].


Rocky Balboa e Mickey Goldmill


Quarta, 20/04/16 [04h e 40min | manhã & tarde] — Formo um novo capítulo, juntando o 7 com a maior parte do 3 & trechos reescritos da 2ª parte do 1 [parte “Camisa 23...” de 2015] + uma cena do 4º trat. [6ª e 7ª partes do cap. 10]. Algumas novidades: atualizo a adversária das oitavas para Jequié; escrevo os originais dos xodós “como a possibilidade de substituir um goleiro titular, durante a partida, é mínima, a resignação é a grande arte de um goleiro reserva” [embora que, nessa época, Mudinho era o reserva; em “oroboro baobá”, é Sereno que se resigna como reserva de Montanha] e “Moinho de Ouro dá um resmungo de baixo profundo e teme o fracasso. Rodriguez sente falta do beisebol em Miami. Luquita se arrepende de ter largado o colégio pelo futebol” — nessa época, faço uma “homenagem” ao cantor russo Vladimir Pasyukov, a voz mais grave que já ouvi, de basso profundo [cap. 10].


Quinta, 21/04/16 [07h e 50min | da manhã à noite] — Não como reggae do feriado de Tiradentes [o passeio no Litoral Norte ficou para amanhã], e tome-lhe trabalho no romance: formo um novo capítulo juntando o 4 [parte “Camisa 23...” de 2015] com seis cenas do 4º trat. [cap. 11], e revejo um trecho no cap. 10. Algumas novidades: retomo o assédio de Taca Fogo; só que, dessa vez, escrevo um xodó: o capanga tenta, mas se engasga com uma castanha e a moça ri do infortúnio [cap. 10].


Pesquiso sobre a cidade de Porto Seguro no Google, para me situar melhor, e crio locações: a casa da família de Sanfilippo, no condomínio Outeiro da Glória, e o barracão de Marcelino, instalado num sítio às margens do rio Buranhém [cap. 11].


Entrada do condomínio Outeiro da Glória, em Porto Seguro, onde a família de Sanfilippo tem uma casa de veraneio, via Google Maps [até a publicação desse post, eu nunca visitei]

Sinalizado em laranja, o local do sítio & barracão de Marcelino no meu romance, no final da Estrada Pedra do Imbuque, em Porto Seguro, via Google Maps [até a publicação desse post, eu nunca passei por essa estrada]

Sábado, 23/04/16 [06h e 30min | da manhã à noite] — Pela manhã, formo um novo capítulo, juntando o 6 [“Camisa 23...”] com a parte do sarau do 23 [“Antes da...”] + trechos de uma cena do 4º trat. [cap. 12]. Algumas novidades: transformo o 17º Sarau Filosófico do Velho Chico em Bom Jesus da Lapa no Sarau Filosófico do Dendê em Porto Seguro, incluindo poetas indígenas e comparando as performances a um clima “Fellini-Smetakiano”, com direito a uma nota sobre os meus dois mestres; mudo o gênero de Meninico para Meninica, e invento a influência do flautista austríaco, o celular, o interesse da mãe, inserindo uma nota sobre o mestre Mstislav Rostropovich; melhoro o diálogo de Meninica com Dona Arminda [cap. 12].


À tarde desse sabadão, organizo os meus arquivos sobre o processo e escrevo a Introdução, com informações sobre a contabilidade [quantas horas e dias empregados no trabalho] e os locais onde produzi [o original da página “Dados” de “oroboro baobá”, estreando no romance]. Depois, formo o começo de um novo capítulo, juntando um trecho do 11 [“Camisa 23...”] com duas cenas do 4º trat. [1ª parte do cap. 14]. Algumas novidades: Marcelino leva Xandão para um local mais ermo para ameaçá-lo; melhoro o suspense da cena; escrevo os originais dos xodós “Marcelino desliga os faróis. Ao redor, alcatrão”, “o som da sua mastigação se confunde com o barulho dos seres na mata”, “O técnico sente que o cano da arma tem um gosto de cabo de faca de alumínio” e “O motorista abre a porta, sai do carro e começa a cortar as unhas das mãos. Faz-se luz, a interna do veículo. O empresário permite a quebra do sombrio na tortura” [cap. 14].


Domingo, 24/04/16 [04h | manhã] — Formo um novo capítulo, juntando um parágrafo do 13 com duas partes do 5 [ambos “Camisa 23...”] + quatro cenas do 4º trat. [as três partes restantes do cap. 14]. Daí, a dúvida surge: como é a escalação dos goleiros nos treinos? O titular joga no time principal ou no reserva? Se ele jogar no reserva, será mais acionado, e, por isso, haverá mais treino para ele? Mas como combinar as jogadas defensivas com os zagueiros se não jogar no time titular? Enfim, além dessas, tenho outras, que são respondidas, prontamente, via WhatsApp e celular, pelos jornalistas Darino Sena e Carlos Barbosa. Embasado, corrijo erros no romance e insiro a explicação “Às vezes, no coletivo, o goleiro titular joga no time reserva...”.


Segunda, 25/04/16 [05h e 30min | tarde & noite] — Depois de rever onze capítulos já trabalhados, começo a formar um novo capítulo, juntando o 12 com o trecho do vestiário do 3 [ambos “Camisa 23...”] + uma cena do 4º trat. [cap. 15]. Algumas novidades: escrevo o original do xodó “Uma mosca dribla os feitos dos torcedores, e a disritmia do seu voo guia a fuga para longe da vibração da massa em êxtase, do que pode lhe ser fatal: alegria, gritos, amor”; traduzo a intenção de Nilson chamar para oração [“muito mais um gesto de afirmação do compromisso coletivo do que um culto”]; melhoro a treta entre Ramón e Digo Cabral — os originais dos xodós “Ramón imita a postura do pastor da igreja que frequenta” e “Digo Cabral não deixa passar uma fobia sequer, exceto as suas” [cap. 15].


Terça, 26/04/16 [06h e 40min | da manhã à noite] — Termino de montar o cap. 15, juntando o 12 [“Camisa 23...”] com trechos de três cenas do 4º tratamento. Algumas novidades: insiro que Bip-bip faz a transmissão da partida pela Pau Brasil FM; crio a explicação para a péssima partida de Porto Seguro [“uma chaga que acomete times sem tradição quando disputam a fase final de campeonatos, carimbados com a pecha de time sensação”]; escrevo o original do xodó sobre Xandão: “(...) sorumbático — à noite, pesadelos atraem demônios que retiram as suas unhas, cortam a sua língua, incendeiam o seu corpo” [cap. 15].


Trabalho num novo capítulo, juntando o 8 com um parágrafo do 13 [ambos “Camisa 23...”] + duas cenas do 4º trat. [1ª e 2ª partes do cap. 17]. Algumas novidades: melhoro o texto sobre Gonçalo Fernandes e as duas Trancoso; retiro a citação ao documentário “Bahêa Minha Vida” do romance, e troco o que Dom Brito aprecia na rede pelo original do xodó “O senhor se deleita com a vista, o mar a cintilar, a dança das folhas, o azul inalcançável, a brisa temperada” [2ª parte do cap. 17].


Depois do almoço, trabalho em outro novo capítulo, juntando trechos do 13 com a 2ª parte do 3 e um trecho da 1ª parte do 9 [todos “Camisa 23...”] + duas cenas do 4º trat. [1ª e 2ª partes do cap. 18]. Algumas novidades: comento sobre o Dia Nacional da Consciência Negra na abertura do capítulo [1ª parte do cap. 18].


Crio o original do xodó “Os repórteres (...) perdem mais uma batalha contra o inédito — não há declaração que possa explicar o inacreditável”; melhoro as reações positivas e negativas dos jogadores sobre Muralha, e escrevo os originais dos xodós “Luquita seria capaz de vender fotos da irmã no banho para conseguir ser escalado como titular”, “Ramón sempre escapole das responsabilidades utilizando o sobrenatural” e “Orêa tenta reprimir o tesão que sente por Montanha” [2ª parte do cap. 18].

PS: Na manhã da quarta 27/04/16, antes de recomeçar as gravações do Orange Roots, invisto pouco mais de três horas para rever os textos escritos nos últimos dias.


SANFILIPPO MENDONÇA

Sexta, 29 de abril de 2016, manhã. No apê 703-B, decido refazer o personagem Sanfilippo: deixa de ser filho de Dom Brito e dirigente da seleção de Porto Seguro, e passa a ser o jornalista que investigará o passado de Muralha, no lugar de Bip-bip. Com isso: a) a família de Dom Brito perde importância e é limada [snif!]; b) crio o personagem Juvêncio para ser o dirigente da seleção; c) Bip-bip passa a ser apenas um sensacionalista envolvido com mutretas.


Para não me perder, monto um esqueleto dos próximos capítulos a trabalhar. Daí, trabalho na 3ª e 4ª partes do cap. 17, juntando o 10 com uma frase do 13 [ambos “Camisa 23...”] + uma cena do 4º tratamento. Algumas novidades: fundamento melhor a origem de Dom Brito [família foge da Europa por conta da Segunda Guerra]; escrevo o original de “Que sol hercúleo!” [3ª e 4ª partes do cap. 17].


4:20 da tarde, retomo o trampo no romance e, reaproveitando trechos do 10 [“Camisa 23...”], crio uma nova origem para Sanfilippo [filho de um desembargador e uma juíza, rico e gay] e escrevo o original do xodó “É preciso banhar-se nas águas mornas consagradas por um sal que alimenta o sagrado, essência amadurecida da dor e da perda” [3ª parte do cap. 18].


E tem mais: faço uma enxugada daquela, de trechos do 10 e duas partes do 11 [ambos “Camisa 23...”] + uma cena do 4º trat., gerando a 4ª parte do cap. 18 [Marcelino conta sobre Muralha no programa de Bip-bip].

Já no sábado 30/04/16, depois de rever treze capítulos já trabalhados, e terminar de ler o ótimo “Melhores contos”, de Aníbal Machado, acrescento um parágrafo revisto [prefeito pede à Marcelino apoio para a seleção] do 11 [“Camisa 23...”] no cap. 7, e faço uma melhor introdução sobre a importância do futebol para o artilheiro, a escrever o original do xodó “a sina do empreendedor é mais eficiente do que a do artista da bola”.


Termino a produção de abril escrevendo a 5ª parte do 17, a reaproveitar dois parágrafos do 17 [“Camisa 23...”] — a principal novidade é a partida de golfe de Dom Brito & amigos [a “querida” família do empresário é reduzida ao trecho “(...) viúvo, filhos e filhas no empenho das carreiras, netas e netos proliferados pelo globo”].


MAIO NA FUNÇÃO

As novas gravações do projeto Orange Roots no álbum “Fluid” continuam em maio, com o estúdio Casa das Máquinas incluído no processo, Jahgun vindo de L.A. para gravar a voz, mesmo com mais uma resposta negativa de outro contato gringo do meu sócio. Ainda esse mês, consigo as primeiras confirmações da minha curadoria para a Flica 2016. E, o que mais interessa: a intensidade da produção do romance continua em maio [o trabalho é todo feito no home office do apê 703-B], a investir sábados, domingos e feriados também! Óia:

Domingo, 01/05/16 [04h e 20min | manhã] — Trabalho em trechos revistos da 2ª parte do 9 [“Camisa 23...”] e de uma cena do 4º trat., gerando a 5ª parte do cap. 18, o três a zero de Porto Seguro em cima de Santa Luz na 1ª semifinal do Amadô, em que escrevo o original de “Talvez o futebol não seja mais imprevisível”.

Segunda, 02/05/16 [01h | manhã] — Escrevo, do zero, a última parte do cap. 18, com a investigação sobre Mudinho feita por Sanfilippo em Caraíva, o original desse trecho-xodó [onde irei inserir, mais à frente, o trecho ensaístico “Bahia pai canalha” na versão final de “oroboro baobá”].


Terça, 03/05/16 [02h e 40min | manhã] — Revejo o 14 [“Camisa 23...”] e formo as três primeiras partes do 20. Algumas novidades: insiro a informação “a Bahia é quase do tamanho do Quênia” — a comparação usual com a França me incomodara e tenho de pesquisar dimensões de países africanos, até encontrar o Quênia, para ter uma relação mais a ver com essa “nação” atlântica em que nasci, um Estado do tamanho de um país —; Marcelino se ausenta da partida em Santaluz por conta do trabalho como traficante; escrevo o original do xodó “Um 4-5-1 que soa como um 9-1-0. É a sinfonia marcial do resultado a estraçalhar o espetáculo do futebol-arte” [1ª parte do cap. 20].


No olho, via Google Maps, dá para ver que a Bahia (564,7 mil km²) é quase do tamanho do Quênia (580,3 mil km²)

Crio os originais dos xodós “o time do litoral a amarrar o intento, congestionando o gramado do interior, um fado que persiste” e “Montanha se abastece por todas as luzes que a matéria é capaz de sintetizar e calcula que a bola (...) vai para fora: não salta nem acompanha”; insiro a epígrafe de Tabajara Ruas, cortada em dez/15, citada no texto [1ª parte do cap. 20].


Xandão adota o esquema 10-0-0; escrevo o original do xodó “Sereno tem o arrepio premonitório do fim” [1ª parte do cap. 20]; insiro mais um trecho de Marcelino como traficante [3ª parte do cap. 20].

PS: Na quarta 04/05/16, por conta do trampo da Flica, só dá para fazer uma leitura dos trechos do cap. 20 junto com Sarah à noite, e anotar pequenas mudanças a serem feitas.


Quinta, 05/05/16 [05h e 30min | da manhã à noite] — Revejo o 15 e o 16 [ambos “Camisa 23...”] e formo as seis partes restantes do 20. Algumas novidades: como no 4º tratamento havia trocado a fuga de Muralha [e mergulho nas estrelas] para Porto Seguro, mantenho essa opção no romance e faço os policiais abordarem o goleiro logo após ele pular o muro do estádio; melhoro essa cena, descartando a coronhada [Muralha desvia e só é preso por reconhecer a impossibilidade de mudar a situação], a evidenciar a diferença entre Robinson [o vaidoso que quer parecer valente] e Corumbá [o que de fato é valente, sem vaidade]; escrevo os originais do super-xodó “Corumbá tem o olhar do deserto, imune ao outro, sem a misericórdia dos líquidos” e do xodó “Vai me obedecer, fi da peste, ou prefere morrer aqui, nesse exato instante?” [4ª parte do cap. 20].


Escrevo um novo parágrafo, em que mostro o sentimento de Xandão por Lupino [já-já Sereno]: ele se revela a Juvêncio, e Marcelino ordena que volte a se trancar no armário [5ª parte do cap. 20].


Dou uma situada melhor quem é Juvêncio [um contador fã de futebol], faço alguns acréscimos interessantes [“o delegado cheira a unha do seu dedo indicador”], escrevo o original do xodó “O delegado tosse, de um jeito que se assemelha ao escavar de um túnel, na fase final, perto de vencer a pedra e revelar a mesma coisa que é o outro lado”, e invento a marca que Cotrim fala com pausas [6ª parte do cap. 20].


Melhoro o diálogo entre os irmãos Cotrim e Gordo, escrevendo xodós como “Se tá... confirmada... a procedência... não é mais... teu assunto...”, “Pode até tá... pelas bandas... de lá”, “Anote... bichim... ele é... ninguém...” e “Gordo detesta ser o mais novo. Mais ainda: não tem o amparo da lei. Na janela, afasta duas palhetas da persiana, a filtrar o impulso fratricídio para fora”; insiro a cidade pernambucana de Afogados da Ingazeira no romance — abro o Google Maps, procuro uma cidade sertaneja no Nordeste, leio o nome desta [que, até a publicação desse post, eu nunca visitei] e acho incrível uma cidade ser batizada de Afogados da Ingazeira, tão poético e blues! [7ª parte do cap. 20]


A rota sertaneja de Santaluz (BA) a Afogados da Ingazeira (PE) via Google Maps

Ironizo um dos símbolos nacionais e crio a avaliação de Juvêncio sobre a chantagem dos irmãos [8ª parte do cap. 20].


Resumo, em um novo parágrafo [retrato do egoísmo preponderante na sociedade brasileira], as intenções de Juvêncio para Muralha: passar a perna em Marcelino via acerto com Dom Brito [9ª parte do cap. 20].


Sexta, 06/05/16 [06h | tarde & noite] — Revejo a 1ª parte do 19 [“Camisa 23...”] e descarto a briga no vestiário, com ameaça armada de Marcelino, além da bebedeira do então dirigente e do preparador que havia se demitido [adiós, enredo ruim!]. Formo a 1ª parte do cap. 22, juntando duas partes do 1 com uma parte do 19 [ambos “Camisa 23...”] + uma parte do 23 com o 25 [ambos “Antes da Seleção”] + quatro cenas do 4º tratramento. Algumas novidades: de acordo com o roteiro, a final é contra Bom Jesus da Lapa [adiós, Serrinha!], por isso todo reajuste [insiro as novas partes de Bip-bip pegando a foto amassada de Maria]; invento um assédio e roubo da correntinha por Marcelino [1ª parte do cap. 22].


Readequo a curiosa informação do estádio de Bom Jesus da Lapa se situar quase ao lado do cemitério para a transmissão de Bip-bip; crio o goleiro Vidal, da adversária de Porto Seguro, que também faz excelentes defesas, para que o destaque da final do Amadô sejam os goleiros; transfiro a reflexão de Sanfilippo sobre Muralha para um telefonema ao editor paulista — ele acerta o seu livro-reportagem sobre o goleiro que não toma gol [2ª parte do cap. 22].


Em Bom Jesus da Lapa, o cemitério é pertinho do estádio. Imagem: Google

Escrevo o original do parágrafo-xodó da superação do coronel em Marcelino via futebol; invento a explicação do artilheiro por não ter passado a outro jogador a braçadeira de capitão quando foi substituído [2ª parte do cap. 22].


Sábado, 07/05/16 [08h e 20min | da manhã à noite] — Sinto uma necessidade de aproximar o romance à África. Ainda não sei como, mas estou convencido que Muralha é africano, um ser especial com origem na mãe de todos. Relembro de Nelson Mandela, do seu exemplo, e decido prestar uma “homenagem” nas dedicatórias do romance: “Tata Madiba, sem o teu exemplo, não haveria Muralha. Nelson Mandela eterno! Aaah! Dalibhunga!”.

Nelson Mandela (1918-2013)

Na sequência, revejo os cap. 20 e 22. Daí, formo a 1ª parte do cap. 23, juntando o 18 com o 20 [ambos “Camisa 23...”] + duas cenas do 4º tratamento. Algumas novidades: nomeio o cartel que Marcelino trabalha de Berço da Nação; insiro mais dois personagens no jantar [no 4º tratamento, eram só Marcelino e Dom Brito]: o poliglota indígena norte-americano Eknath Gaagé, e o chinês Chung-Sok; crio os balizadores globais do artilheiro: Preecha Hong, MacCormack, Gianluigi, Etezuma da Bolívia e os coreanos de Daejeon [mó diliça pesquisar para criar esses codinomes todos!]; escrevo o parágrafo-xodó dos tiros em Marcelino; presto uma “homenagem” à poeta Adélia Prado [acabara de ler o artigo “Milagre de pés descalços”, de Marcos Pasche, publicado no Rascunho de maio/16, sobre o livro “Poesia reunida”, da grande poeta mineira]; escrevo o original do xodó “Chung-Sok elogia o disparo, só que Taca Fogo não fala inglês, muito menos mandarim. Eknath Gaagé, intrigado com o que considera ‘uma confirmação abrupta da traição’, exposta tão facilmente, pergunta a Pedraluarez se a isca vale tanto assim...” [1ª parte do cap. 23].


Domingo, 08/05/16 [02h e 40min | manhã] — Revejo o 22, a 1ª parte do 23 e a contabilidade do trabalho no romance. Escrevo, do zero, a 2ª parte do 23 [na redação do jornal, Sanfilippo rouba a foto de Maria sem Bip-bip perceber].


Segunda, 09/05/16 [04h e 30min | manhã] — Formo a 3ª e 5ª partes do cap. 23, juntando o 21 com o 22 [ambos “Camisa 23...”]. Algumas novidades: faço bons acréscimos, como a justiça da sociedade paralela fora feita, o artilheiro morrera antes da redenção secreta, correntinha roubada em cima do caixão; escrevo os originais dos xodós “‘O próximo pode ser eu’, Xandão absorve para si e planeja se mudar com Sereno assim que o tratamento terminar. Porém, para que lugar? Assumir a relação homossexual, trabalhar com futebol e ficar seguro, como?” e “Há um palanque, e as autoridades se acotovelam para prestar homenagens, ficcionar relações afetivas com o morto e se dispor da temperatura favorável às emoções para tentar atrair a simpatia do público e os seus futuros votos” [3ª parte do cap. 23]; melhoro o diálogo entre Xandão e o prefeito [5ª parte do cap. 23].


Terça, 10/05/16 [15min | tarde] — Dia cheio de trampo Flica 2016, arrumo uma brecha para pesquisar nomes pataxós e batizar personagens da aldeia do meu romance. 4:20 da tarde, via informações do site Índios Online, escolho o sobrenome de Paca [Apaká Angorró = Pé de Lua] e o nome do cacique [Takunarré Hahãu = Bem da Terra], e ainda batizo o índio mais velho de Kuparaká Auptxuy [Osso de Paca], e Seco de Mukussuy [peixe assado em folhas de palmeira], inserindo as alcunhas nos capítulos do baba na aldeia e no enterro de Marcelino.


Quarta, 11/05/16 [55min | noite] — Depois de uma tarde inteira de ensaio com Jahgun, focado nas novas músicas do repertório Orange Roots [hoje, 35 anos sem o rei Bob Marley], volto a trabalhar no romance, no inusual horário noturno [prefiro escrever de dia]. Do zero, escrevo a 4ª parte do 23, em que Juvêncio faz uma proposta para Muralha.


Sexta, 13/05/16 [02h e 30min | manhã & noite] — Começo a formar o cap. 25, juntando o 23 [“Camisa 23...”] com uma cena do 4º tratamento [insiro, como epígrafe do capítulo, o lema Jam ante brasiliam ego (“Antes do Brasil, eu”), da bandeira de Porto Seguro].


Bandeira de Porto Seguro

Sábado, 14/05/16 [06h | da manhã à noite] — Termino de formar o cap. 25, juntando o 23 [“Camisa 23...”] com uma cena do 4º tratamento. Algumas novidades: escrevo os originais dos xodós do diálogo entre Juvêncio e o prefeito [“Lacerda diz que não sabe de dinheiro algum (...)/ E precisa?/ A minha parte, sim, não acha? O resto é problema seu!/ Quem sou eu pra achar alguma coisa.../ Não tá zero a zero? Pode piorar./ Piora não... Montanha não deixa”], “o magricela Vidal, de mãos trocadas, auxilia o travessão a retirar o gol” e “O batedor (...) olha para Montanha e enxerga um enorme ser mítico, capaz de tornar o futebol previsível. Sente medo. Tenta se concentrar na sua fé, pede proteção ao seu divino e aos santos e aos anjos e santos e à sua vozinha na cidade de Ibotirama, Bahia” [uma “homenagem” ao amigo Carlos Barbosa, que foi criado nesta cidade].


Invento os bastidores antes dos pênaltis; quem manda a bola muito para fora é Ramón, e não mais o capitão Nilson; troco o batedor Tonho da Penha [já havia o Toinho da Tonha no romance] por Betinho da Gruta; troco o autor do pênalti do título: de Gorado [2015] a Marcelino [4º trat.], prefiro o negro Digo Cabral [cap. 25].


Escrevo os originais dos xodós “Na tribuna, Romualdo Canindé cumprimenta Juvêncio pela vitória e comenta: Essa felicidade, o dinheiro não compra!”, “Em casa, o goleiro Sereno comemora, via celular, com o namorado Xandão que, apaixonado, em êxtase pelo título, promete que vai assumir a relação: Não vou esconder de mais ninguém! Eu te amo! Te amo!” e “No Toca do Guaiamum, não há mais espaço para o pesar do luto: com o título, o artilheiro Marcelino está superado”; melhoro [again] as reações dos jogadores de Porto Seguro ao comemorar o título em campo [cap. 25].


LIBÉLULA & URSO EM MURALHA

Sábado, 14 de maio de 2016, desisto do projeto do livro “A libélula e o urso — Cinza”, em parceria com Sarah Fernandes. Uma ideia vinha me rondando esses tempos, de reservar o meu texto exclusivamente para os romances, tanto que havia recusado convites para coletâneas e orelhas. Hoje, com essa desistência, a idiossincrasia [maluquice] se firma: só escrevo literatura, para os meus romances, nada mais. Sarah, tranquila, lamenta o meu “rompante”, e transparece que não ficou chateada.

Dos 21 textos meus presentes em “A libélula e o urso — Cinza”, seleciono 13 para serem reaproveitados no romance, e arquivo os restantes [em 2017, esses oito foram revistos, reescritos e lançados no livro “Quem se habilita a colorir o vazio?”, com a forma de poemas, como “Entes”, “Rugas”, “Piano” e “Herança”].

Na manhã do domingo 15/05/16, no apê 703-B, revejo o cap. 25. Então, modifico o nome do personagem Lupino para Sereno [mais a ver com a personalidade de um resignado goleiro reserva], e atualizo no romance. Daí, formo a 1ª parte do cap. 31, juntando trechos do 15 com a 4ª parte do 23 [ambos “Camisa 23...”] + três cenas do 4º trat. + trechos revistos de “A liberdade sitiada” [original de 06/10/15], “Umbigo” [original de 30/09/15], “Enquadrada sinuosa” [original de 09/10/15, 24/11/15 e 09/03/16], “Estradar em repeat eterno” [original de 09/03/16], “Distração” [original de 02/12/15 e 09/03/16], “A formiga” [original de 24/10/15] e “Deus dança” [original de 03/11/15], do descartado “A libélula e o urso — Cinza” [destes, só “Deus dança” está presente em “oroboro baobá”; os demais foram lançados como poemas em “Quem se habilita a colorir o vazio?”].


À tarde, leio a 1ª parte do cap. 31 [fuga de Muralha do Toca do Guaiamum, para se embrenhar no mangue e mergulhar nas estrelas] junto com Sarah, e gostamos do resultado. Sinto muito orgulho de ter escrito esse trecho do romance, e tenho esperança de estar no caminho “certo”.

Eita domingão maravilha! Escrevo vários originais de xodós nesse trecho: “A serpente de raios coloridos desliza, e o enquadramento reducionista dos olhares tenta, sem sucesso, traduzir a imaginação”, “Num pique contínuo, sem concessão, postura firme em passadas cadenciadas, Montanha transpõe a rapina da cidade, à vibração de um gongo. Corre, mas não foge. Não há medo”, “Os habitantes do manguezal respeitam a sua solidez sem qualquer tipo de interferência” e “O restinho do pôr do sol encerra a tarde”. E, para celebrar, muito, escrevo o super-xodó “Pois, se for Deus, dança — as interpretações restantes são facções de uma ficção opressora”. Uhuuu!!!


Apê 703-B, manhã da segunda 16/05/16, formo a 1ª parte do cap. 27, juntando a 2ª parte do capítulo O imbatível com uma cena do 4º trat. + o texto “Fulô” [original de 23/09/15], do descartado “A libélula e o urso — Cinza”. Algumas novidades: insiro as intenções de Dom Brito; escrevo os xodós “Juvêncio, a arranhar as cordas vocais, tenta sintonizar o melhor timbre, mas titubeia”, “o dirigente é mais próximo e palpável do que o prefeito” e “Juvêncio, estás a me ludibriar?”; crio os originais dos xodós “E funga e tosse e limpa os olhos com os dedos vindos da festa do título” e “Meninica se treme toda, e as lembranças das violências sofridas no cotidiano, efetuadas sempre por homens, inibem a reação e a frustram”; invento o xodó do quarto vazio de Muralha, sem vestígio da sua estadia, cuja aparência “é de um quarto que acaba de ser limpo, higienizado. Mais ainda: pronto a receber o primeiro hóspede” [1ª parte do cap. 27].


PS: Uma pena, mas o texto “Fulô” sobrou; como permaneceu até a versão “oroboro baobá” de out/18 [quando foi cortado por opção editorial], não foi lançado como poema em 2017, no livro “Quem se habilita a colorir o vazio?”.


Outra manhã no apê 703-B, terça 17/05/16, e eu escrevo a 2ª parte do cap. 27, adaptado da 2ª parte do capítulo O imbatível, de duas cenas do 4º trat. + os textos “Blues” [original de 12/10/15] e “Marte” [original de 09/03/16], do descartado “A libélula e o urso — Cinza”. Digo adaptado, porque crio vários trechos, usando apenas, da versão anterior e do roteiro, as reflexões de Muralha que estavam na voz do narrador e de Bip-bip. Agora, dou vida à Sanfilippo, que está num hotel “imparcial, inexpressivo e de série”, de morder a nuca [lembranças da solidão no hotel em Porto Alegre], a escrever o seu livro e investigar o passado de Muralha. Invento a fossa por Takeshi, a inveja da pele da jovem no retrato roubado. E escrevo os originais dos super-xodós “Sanfilippo se arrepia e escapole do texto. Há muito, solteiro. A inveja aquece: gostaria de não se incomodar. Mas será que, para além da aparência, Montanha não vibra? Como o amor não faz falta?” e “Sente que precisa se distrair um pouco e bisbilhota, na mídia social da vez, os demais escafandristas que se ocupam em entulhar a rede, à caça de um sinal luminoso de que ainda há alguém, ou algo, que lhes bombeará o oxigênio que resta” [2ª parte do cap. 27].


PS: “Blues” está presente em “oroboro baobá”, e “Marte” foi lançado em “Quem se habilita a colorir o vazio?”.


Tarde da segunda 23/05/16, no apê 703-B, revejo o cap. 12 e insiro, no penúltimo parágrafo da 2ª parte, os textos “O habitante dos telhados” [original de 27/11/15] e “O dia aqui dentro” [original de 25/09/15 e 09/03/16], do descartado “A libélula e o urso — Cinza”.


PS: Ambos não estão presentes em “oroboro baobá”; foram lançados como poemas em “Quem se habilita a colorir o vazio?” [“O dia aqui dentro” com o novo título de “Sal”].


Sábado 28/05/16, manhã no apê 703-B, revejo o cap. 23 e insiro, no último parágrafo da 4ª parte, o texto “Totó” [original de 10/11/15] — incluindo a nota, também —, do descartado “A libélula e o urso — Cinza”.


PS: “Totó” está presente em “oroboro baobá”, assim como “Deus dança” e “Blues” [os três que restaram de “A libélula e o urso — Cinza” no romance], mas deslocado para outro trecho, lá no hotel com Sanfilippo, em que o jornalista, antes de desconectar, vê o texto na rede social como uma pergunta de um solitário.


MARIA É MURALHA

Terça, 17 de maio de 2016, tarde. De volta ao apê 703-B, após fazer pagamentos do projeto Orange Roots, retomo o trampo no romance. A partir do esqueleto da investigação do passado de Muralha por Bip-bip [criado em set/15, para orientar o 4º tratamento do roteiro, e abandonado logo depois], revejo os passos dessa investigação; agora, a ser feita por Sanfilippo.

Bingo! Um pipoco acontece! Desdobro o estalo de Muralha homem-mulher: Maria É Muralha, e não a mãe dele. Acho a ideia muito interessante de ser explorada; intuo que seja a peça-chave para concluir o romance.

Maravilha tecnológica: encontrar palavras apenas com um clique

PALAVRAS REPETIDAS

Quarta, 18 de maio de 2016. No apê 703-B, a função continua [ainda bem!]. Pela manhã, revejo o cap. 27 e o caminho da investigação de Sanfilippo [abandonada no começo de junho, quando preferi matar o personagem]. À tarde, transformo em prática a pesquisa e troca de palavras repetidas, fundamental para a produção do romance.

Sou fã das funções “localizar” e “substituir” do programa Word. Em 2015, fiz um post no Facebook celebrando essa “muleta” indispensável [Como é que escreviam romances sem o conforto da função “localizar”?]. E, a partir de hoje, imponho como hábito na jornada; de caju em caju, ou quando suspeitar de repetições, tome-lhe “localizar” para corrigir erros no romance.


PS: Invisto quase oito horas de trabalho, em 19 e 20 de maio, para rever capítulos iniciais do romance. Indício de procrastinação? Sim. Necessário rever? Sim, mas é enrolação, também.

Em vermelho, a epígrafe de Adélia Prado garimpada para o meu romance

EPÍGRAFE [5ª ESCOLHA]

Quinze dias atrás, li o artigo “Milagre de pés descalços”, de Marcos Pasche, publicado no jornal Rascunho #193, sobre o livro “Poesia reunida”, de Adélia Prado. Hoje, sábado 21/05/16, de manhã, seleciono dois versos da grande poeta mineira, lidos nesse artigo, para ser mais uma epígrafe do romance, ao lado de Eckhart Tolle.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem./ Mulher é desdobrável. Eu sou.” são os versos de Adélia Prado que fecham, brilhantemente, “Com licença poética”, publicado no seu livro de estreia, “Bagagem”, de 1976.

“Oxumaré, o arco-íris”, do mestre Carybé

OXUMARÉ EM MURALHA

Primeiro, em 14 de abril desse ano, intuo que Muralha é homem e mulher, corpo masculino e órgão sexual feminino. Depois, em 16 de abril, intuo que Muralha é um ser fantástico. Daí, resolvo “homenagear” o meu pai Ildegardo Rosa que, quando vivo, me dizia que o seu orixá era Oxumaré [embora se afeiçoasse com Oxóssi]. Com os novos direcionamentos de Muralha, busco características de Oxumaré que pudesse incluir no romance.

Segundo o site “Candomblé | O Mundo dos Orixás”, é o orixá “de todos os movimentos, de todos os ciclos”, que “mora no céu e vem à Terra visitar-nos através do arco-íris”, a “grande cobra que envolve a Terra e o céu e assegura a unidade e a renovação do universo”. 

Oxumaré [ou Oxumarê] representa “o ciclo da vida, pois da junção entre masculino e feminino é que a vida se perpetua”. O orixá é “um deus ambíguo, duplo, que pertence à água e à terra, que é macho e fêmea”, que “exprime a união de opostos, que se atraem e proporcionam a manutenção do universo e da vida” e “sintetiza a duplicidade de todo o ser”. Lindo demais: “Oxumaré mostra a necessidade do movimento da transformação”. Bingo! O romance é movimento puro. E está se tornando cíclico, fusão de opostos, ambíguo, oroboro.

Oxumaré por Hugo Canuto

Òsùmàrè, em yorubá, significa “arco-íris”. Pois escolho levar para Muralha o arco-íris e a serpente como arquétipos de Oxumaré. Pesquiso e seleciono também os alimentos-oferendas ao orixá, principalmente a batata-doce, que amo [outra afinidade: Omulú, orixá que gosto, é irmão mais velho de Oxumaré].

No cap. 2, escrevo o original do xodó “O pataxó abre um pote e belisca umas rodelas de batata-doce com manteiga, o agridoce que o faz sensível à presença do mar, ali perto, atrás da mata”.


No cap. 14, insiro mais alimentos relacionados ao que pesquisei sobre Oxumaré [pode ser que esteja errado, pois não sou especialista ou praticante; perdão, se houver erro], e escrevo o original de “Gigante come melancia e outras frutas frescas, cuscuz de milho com ovos e mel, e muitas rodelas de batata-doce. Prefere água de coco aos sucos” [na versão anterior, sem a referência ao orixá, os alimentos eram da minha preferência: “Muralha come cuscuz de tapioca, bananas, dois pães, bolo de fubá e algumas laranjas”].


Também insiro alimentos no final do cap. 20 [o trecho não ficou em “oroboro baobá”]: “Montanha continua na incumbência de se reabastecer do que primordialmente importa. Purê de batata-doce, empadão de camarão e banana da terra frita no azeite”.


No cap. 15, insiro o arco-íris e a serpente de uma maneira “floreada” [1ª vez que uso o verbo “fremir”], a escrever o original do xodó “Numa ponte baixa, esteticamente ofídica, Montanha defende, rente ao campo, a inspirar o aroma da grama recém-cortada, e a bola vai para a lateral, empurrada pelas mãos que aparentam, vistas da arquibancada, feixes de luz de sete cores, a fremir as miríades espectrais de uma garoa ensolarada”. Outras inserções, já citadas: no cap. 25, o original do xodó “Como uma serpente que tenta morder o próprio rabo, um baobá cujas raízes são os galhos, Montanha enrosca a matéria e consegue retornar” — troco a “pantera negra do realismo fantástico” pelo oroboro; na 1ª parte do cap. 31: “A serpente de raios coloridos desliza”.


No cap. 22, insiro o original do xodó “Montanha não se movimenta — compreende o idioma das serpentes, que sibila numa frequência inaudível à maioria dos seres que mamam” [escrevo esse danado na sexta 06/05/16, em que também crio o original do xodó “Montanha não compreende o esforço, pois o seu cálculo legitima a certeza: enquanto for a pessoa responsável por defender, Porto Seguro não toma gol” no mesmo parágrafo].


Todas essas inserções Oxumaré no romance são feitas em abril e maio, no apê 703-B, mesmo local onde, na noite da sexta 20/05/16, vejo uma postagem do artista Max Fonseca, sócio da Orange Roots, no Facebook, e mergulho na força da imagem. Que fantástica! Fabulosa! Piro na ilustração “Oxumarê: o sonho da serpente”, de Max Fonseca.

Às 21h27 da noite, Max Fonseca posta no Facebook a sua ilustração “Oxumarê: o sonho da serpente”

No dia seguinte, sábado 21/05/16, manhã no apê 703-B, encontro a solução para validar a história de Maria como Muralha: por conta da violência feita pelo fotógrafo, ela somatiza a dor se transformando em uma figura masculina [por ter qualidades sobre-humanas, ainda não definidas]; enquanto há trauma, Maria é Muralha; a redenção do romance passa a ser o momento em que a personagem se transforma em mulher novamente, livrando-se da dor. Então, escrevo o esqueleto das partes que faltam [sinto-me muito satisfeito por “arrematar a história” — como escrevi na agenda 2016].

A 5ª sugestão para a capa do romance: a pintura “Oxumarê: o sonho da serpente” (2016), de Max Fonseca

CAPA [5ª VEZ]

Gosto muito da pintura creditada como “Série Anjos Baldios (2004-2006)”, do amigo Nelson Magalhães Filho [a figura humana formada por “montanhas”], que estava como sugestão da capa do romance desde o final de 2014. Porém, “Oxumarê: o sonho da serpente” pirou o meu juízo: na manhã do sábado 21/05/16, crio uma nova capa para “Muralha” com essa fantástica ilustração de Max Fonseca [a tal altivez & força que busco para o personagem está MUITO representada nela; somada, agora, ao extraordinário, ao divino, ao oroboro].

Engraçado que, pela 1ª vez, ao elaborar uma sugestão de capa, com o título e o meu nome, insiro também uma marca de editora, para gerar uma vibração positiva: volto a sonhar com a LeYa [em 2016, fico sabendo do valioso Prêmio LeYa, cogito inscrever, mas fica para a próxima edição, porque o romance tá incompleto quando as inscrições se encerram — assim como no fatídico Prêmio LeYa 2019, o júri escolheu não premiar nenhum romance em 2016]. Até que a LeYa ficou bonitinha na capa; combinou a marca vermelha com a imagem, inclusive o formato vertical. Porém, semanas depois, troco por uma genérica, pois volto a cobiçar o Prêmio Sesc, depois que o baiano Franklin Carvalho faturou a edição 2016.

Orgulho de ter “Oxumarê: o sonho da serpente” em casa

Sou fã de “Oxumarê: o sonho da serpente”. Na segunda, 15 de agosto de 2016, compro a tela na mão de Max Fonseca. Dias depois, coloco-a numa moldura e exponho no Facebook [post acima]. Tenho orgulho dela e a prego no home office, bem próxima de mim, para “iluminar” a minha criatividade a escrever “Muralha” [até que, em set/16, mudo o título e a capa].

“Oxumarê: o sonho da serpente” no home office do apê 703-B, maio de 2020

PS: Na época em que escrevia esse texto, durante a pandemia do novo coronavírus, maio de 2020, tirei a foto acima e a enviei para Max, relembrando a tela [havia proposto ao amigo uma outra participação nessa jornada].

A piauí me apresenta o OuLiPo

RESTRIÇÃO #01

Nunca havia ouvido falar do OuLiPo antes. Daí, na piauí #114 [ainda era assinante da revista], de mar/16, li a matéria “Ratos no Labirinto”, de Bernardo Esteves, sobre a escrita restritiva desse movimento literário francês, surgido em 1960.

A Wikipédia informa que os autores do Ouvroir de Littérature Potentielle “procuram propor regras para suas produções literárias tais como escrever um romance inteiro utilizando uma só vogal (Les revenentes, de Georges Perec), utilizando ao máximo a linguagem oral (Zazie no Metrô, de Raymond Queneau), entre outras restrições”. Segundo João Pombo Barile, num texto n’O Tempo, “o OuLiPo se dedicou a aplicar à literatura princípios matemáticos, criando uma permanente recriação da língua e da literatura”.

Confesso que, depois de ler a matéria de Bernardo, não tive nenhum interesse em comprar livros de autores do OuLiPo. Como não tenho até hoje. Acho legal ter opções e formas diferentes de trabalhar a literatura, mas não me sinto seduzido a consumir isso. O que ficou daquela leitura: escrita restritiva. Criar regras, jogos internos, uma segunda camada para o romance.

“O sumiço”, de Georges Perec, traduzido por Zéfere, foi lançado pela Autêntica em 2015, e fez um burburinho em 2016, pela proposta restritiva de um romance escrito sem a letra “e”, a mais frequente da língua francesa, e o desafio de traduzir para o português. Pela proposta, quase comprei. Desisti, ao ler os trechos — achei entediante [na teoria, lindo; na prática, um saco]

Sábado, 21 de maio de 2016, manhã. No apê 703-B, o OuLiPo oferece o seu presente [indireto] ao romance: me faz elaborar a Restrição #01 de “oroboro baobá”. O narrador não fará qualquer menção a masculino ou feminino em relação ao personagem Muralha [Montanha]. A intenção é deixar dúbio. A determinação do gênero se dará apenas nas falas dos personagens, nunca pelo narrador. Bingo! Adorei! Então, revejo os primeiros capítulos do romance, na função de aplicar esse método.

A seguir, no apê 703-B, invisto 25 horas de trabalho em 06 dias [22 a 24 + 26 a 28/05/16] para rever todos os capítulos [e partes de capítulos] trabalhados até agora, e adequá-los à Restrição #01 do romance.

PS: À noite do sabadão fantástico de 21/05/16 [restrição do narrador não determinar o gênero de Muralha, solução do enredo Maria-Muralha, nova capa com ilustra Oxumarê de Max Fonseca e epígrafe de Adélia Prado], em um jantar no apê dos amigos escritores Carlos Barbosa e Mônica Menezes, acompanhado por Sarah Fernandes, ouço o nome “Maxakali” pela 1ª vez, e me interesso em inseri-lo no romance [dos presentes de 21 de maio, apenas a restrição do narrador e Maxakali permanecem em “oroboro baobá”].

Praça Ana Lúcia Magalhães, na Pituba, via Google Street View. Muitos passeios aí com Sarah Fernandes, que me ajudaram a melhorar o romance

MURALHA NA PRAÇA

Domingo, 29 de maio de 2016, tarde. Depois da praia furar por causa da chuva, do 1º episódio da série “Marco Polo”, e da obra-prima “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Coen [revi de novo, adoro!], sempre na companhia “domingrudada” com Sarah Fernandes, conversamos sobre os novos rumos de “Muralha” no apê 703-B.

O tempo abre, vamos passear na Praça Ana Lúcia Magalhães, o papo sobre o romance continua, e eu defino o que fazer com o enredo: não vou mais revelar a história de Maria pela investigação de Sanfilippo, e sim apresentá-la em outro tempo [o passado com Maria acontecendo em capítulos corridos, após o presente com Muralha].

Neblina e frio em Vitória da Conquista, em destaque na Globo News

A MORTE DE SANFILIPPO

Retomo o trabalho no romance “Muralha” na quinta 02/06/16, após três dias dedicados à Flica e ao Orange Roots. No apê 703-B, reescrevo o esqueleto das partes que faltam e decido matar o personagem Sanfilippo — ele bem que tenta descobrir o passado de Muralha, mas acaba falecendo, numa madrugada fria e enevoada em Vitória da Conquista, por conta de um aneurisma [o que levou, precocemente, o jornalista Lucas Sande, o melhor de nós, em 2013 — fiz uma homenagem ao amigo aqui e aqui]. Crio a sua morte no cap. 27 e, para estabelecer uma coerência, insiro enxaquecas em Sanfilippo ao longo dos capítulos.


MAXAKALI EM MURALHA

02 de junho de 2016. Ainda é a segunda da morte de Sanfilippo, só que à tarde: pesquiso sobre a cidade de Mucuri e sobre os índios Maxakali, habitantes do Vale do Mucuri, no nordeste de Minas Gerais. Defino que a ascendência da personagem Benivalda, mãe adotiva de Maria/Muralha, será Maxakali.

A foto de Marilton Maxakali, registrada na aldeia Vila Nova, em Minas Gerais, me inspirou a criação da personagem Maxakali do meu romance [nessa época, Bartira mãe adotiva de Maria; em “oroboro baobá”, Nara Maxakali, mãe adotiva de Mkini]

BENIVALDA & BARTIRA

Como Maria não é mais a mãe de Muralha, preciso melhorar essa família. Então, no apê 703-B, tarde da terça, 03 de junho de 2016, modifico a mãe adotiva de Maria para Bartira Maxakali, que tem uma mãe mais velha, Benivalda Maxakali. Em vez de duas, são três mulheres fortes nesse núcleo [além de Dona Tonica]. E a Bartira diretora do orfanato, ganha um nome gringo, mais de acordo com a sua origem: Breindel Zahavi. Por fim, escrevo um novo esqueleto para as partes que faltam, e celebro por ter conseguido criar um final para o romance [Maria/Muralha, de volta ao seu corpo feminino, reencontraria a mãe Bartira e o seu filho José, que fora criado pela avó enquanto a mãe estava desaparecida como Muralha]. Aláfia!

Em 2016, a contabilidade do trabalho estava errada [15 dias a menos]; por isso, só divulguei a imagem acima no começo de agosto, celebrando o 200º dia de trabalho [na real, o 215º, em 03/08/16]

200º DIA OROBORO

Segunda, 06 de junho de 2016. Ou 200º dia de trabalho em “oroboro baobá”. Dez anos depois da data 6/6/6, alegrias para o romance, como uma nova restrição e o adiós aos nomes Maria e José [protagonistas negros, índios chegando com força, tome-lhe Brasil diáspora africana, Brasil dos legítimos donos da terra, não vejo mais sentido em manter nomes bíblicos].

O cantor e compositor Alpha Blondy, ícone do reggae (foto daqui)

MARIA É MIWA

Na metade final dos anos 1990, tive acesso ao trabalho do marfinense Seydou Koné, conhecido como o cantor e compositor Alpha Blondy [uma das estrelas mundiais do reggae], muito por conta do álbum “Masada” (1992). Figura queridíssima na Bahia, as suas músicas sempre tocavam nos programas de reggae das rádios soteropolitanas. Eu era fanático por Bob Marley & The Wailers, e começava a abrir a cabeça para outros ícones, como Burning Spear, Peter Tosh, Gregory Isaacs e Edson Gomes, mas eu pirei mesmo no marfinense, comprando, de vez, cinco dos seus álbuns.

Alpha Blondy arrebentou na minha casa. Foi o único reggae star que conquistou os meus pais. Quando eu botava para tocar, os velhinhos [pai 49 anos mais velho do que eu; mãe, 42 anos] ficavam dançando na sala, uma coisa linda, emocionante. Em um dos álbuns que eu mais ouvia, “Jerusalem”, de 1986 [gravado no estúdio da Tuff Gong na Jamaica, com a banda The Wailers, composto, produzido e arranjado por Alpha Blondy], há uma canção que se tornou um xodó: “Miwa”.

“Miwa”, de Alpha Blondy, uma canção xodó, muito importante para o romance. Ouça no YouTube aqui

Embora desconhecesse o idioma [presumia que fosse uma das línguas faladas na Costa do Marfim], a abertura grudou na minha mente e nunca mais parou de tocar [repeat eterno]: “Miwa Eh, Miwa, Miwa Nion, ôtih Miwa oh/ Miwa Eh, Miwa, Miwa Nion, ôtih Sran Kpa oh!” [o refrão também: “Miwa Nion, Miwa Nion, na satchi Miwa Nion”]. Pensando agora, é interessante que, desde o primeiro momento em que a ouvi [lado B total, track sete de um total de nove], senti que o nome Miwa seria especial na minha vida. Só não sabia como.

Reencontros, sincronia, adoro quando o quebra-cabeça se encaixa. Dentro do apê 703-B, na manhã da segunda 6/6/16, cada vez mais próximo da diáspora africana no romance, desisto do nome bíblico Maria, e modifico para o nome [que sempre fora destinado a ser] Miwa. Seja bem-vinda, Miwa Maxakali! Fico tão emocionado que penso: se eu tivesse uma filha, se chamaria Miwa!

Desde 2007, o Rádio África é o único programa em FM e rádio online no Brasil voltado exclusivamente para a produção musical africana

JOSÉ É MBIRA

Entre 2009 e 2010, trabalhei na rádio Educadora FM, uma época muito rica de aprendizado musical. Vários feras trabalhavam lá, e eu parecia uma esponja, absorvendo o máximo que eu podia. Um dos colegas da minha sala, Roberto Barreto [guitarrista e criador do BaianaSystem], produzia um programa muito especial, chamado Rádio África, único canal que me deu acesso a artistas africanos que me tornei fã, como os gigantes malineses Salif Keita e Habib Koité, entre outros. Graças ao trabalho de Beto, Lúcio Magano e DJ Sankofa, muita gente na Bahia [e no resto do mundo via internet] ganhou esse presente também [Rádio África continua ativo, ouça aqui].

Pois foi o comparsa Beto quem me apresentou o álbum “Civilização & Barbarye” (2006), não de um artista africano, e sim de um percussionista argentino, radicado na Bahia, que dedicou a sua arte à pesquisa dos ritmos afro-baianos: Ramiro Musotto. Na penúltima faixa desse álbum, a sincronia me revelou um presente: o tema instrumental “Mbira” [composição de Ramiro e do também percussionista argentino Santiago Vazquez].

“Mbira”, por Ramiro Musotto, um tema xodó, muito importante para o romance. Ouça no YouTube aqui

Que beleza! Putz, fui magnetizado na hora! Viciei! Berimbaus psicodélicos, um climão transcendental, mântrico, e umas gotas percussivas a fundir o meu astral com o universo. Que instrumento “líquido” era esse? Parecia uma kalimba, que já conhecia. Não. Era um instrumento africano, que dava nome à composição: MBIRA! Pois o tema dos argentinos me abriu a cabeça e eu passei a pesquisar e a assistir vários vídeos com o uso da mbira.

Corta para 2016. Março. Algo me relembrou Ramiro Musotto [faleceu em set/2009, vítima de um câncer, aos 45 anos]. Fiz um post no meu blog, “Mbira, uma música cinematográfica”, em homenagem a esse tema que amo. Ou seja, o instrumento voltou a ficar em pauta. Corta para hoje, segunda 6/6/16, manhã, apê 703-B. No embalo de africanizar os personagens, depois de Maria virar Miwa, modifico o nome do seu filho José para Mbira. Que alegria! Um filho com nome de instrumento! Seja bem-vindo, Mbira Maxakali! Viva a mbira!

Mbira, o instrumento que transcende (foto daqui)

RESTRIÇÃO #02

Nunca quis um narrador que fosse personagem [ou personagens] no romance. A minha paixão audiovisual inventou que o narrador deveria ser a tela de cinema. Ao longo dos anos, foquei em aprimorar essa neutralidade. Não sei se consegui. Enfim, por conta dessa meta, na segunda, 06 de junho de 2016, apê 703-B, elaboro a Restrição #02 de “oroboro baobá”: o tempo verbal deve ser todo no presente, para induzir a sensação de estar acontecendo no momento em que o leitor lê, sempre em movimento. Pratico a escrita restritiva ainda mais: caso haja a necessidade de escrever num tempo passado, terá que ser no pretérito mais-que-perfeito, pois o personagem Muralha é um ser “mais-que-perfeito”. Sassinhora, que maluquice! Bingo! Adorei!

Vou ter de aplicar a Restrição #02 nos capítulos do romance. Com preguiça, decido fazer aos poucos, e refaço apenas a Introdução e os agradecimentos.

Em maio de 2020, o Google homenageia a mbira com o doodle mais lindo de todos, acesse aqui

CAPÍTULOS CORRIDOS VS. PARTES

Quando começo a escrever o romance, vou criando os capítulos de forma corrida. Em 26/06/13, defino que o romance será dividido em 04 partes: “Parte I — Mudinho 2010”, “Parte II — Profissional 2011-2012”, “Parte III — Resiliência 2013” e “Parte IV — Do mundo 2014”. Só consigo escrever a parte I. No final de out/14, modifico o nome da 2ª parte para “Parte II — Baêa”, mas só escrevo um argumento. Em 16/11/14, assumo que a “Parte I — Mudinho 2010”, com capítulos corridos, passa a ser o conto “Muralha”.

No final de fev/15, volto a considerar a obra um romance. Em 08/03/15, divido o romance em duas partes: “Parte I — Antes da Seleção” e “Parte II — Camisa 23 de Porto Seguro” [nos capítulos, troco a numeração romana para indo-arábica]. Entre março e abril, crio dois capítulos, antes e depois das partes: “O baba” para abrir e “O imbatível” para encerrar. No final de out/15, troco as partes por capítulos corridos [talvez incomodado com os péssimos títulos].

Terça, 07 de junho de 2016, resto da manhã, apê 703-B. Tô cheio de novidade para o romance, duas restrições, esqueleto implorando pr’eu metê-mão, Maxakali, Miwa-Muralha, Mbira, etc. Bora começar? Nada. Protelar é bom, às vezes. Vou mexer na estrutura. Acho que esse conteúdo todo, de passado e presente, numa embolada só corrida, vai confundir o público.

Afff, que saga! E vai demorar para ter fim. Acho que esse é o maior embate que eu tive/tenho com a obra: “ajudar” o leitor ou aceitar a complicação que a arte me “pede”? Enfim, novo capítulo de “Capítulos Corridos x Partes”: dessa vez, opto dividir [didaticamente] o romance em quatro partes: “Imbatível” [abertura ensaística], “Muralha” [presente masculino & futebol], “Miwa” [passado feminino & traumático] e “Mbira” [redenção feminina & família]. Faço essas modificações no texto já trabalhado.

Aldeia Verde, do povo Maxakali, em Minas Gerais, na foto de Frederico Lobo (mais aqui)

PESQUISA MAXAKALI

Não me sinto confortável de escrever sobre o povo Maxakali. Não os conheço nem os visitei em Minas Gerais. Pesquisar é preciso! Então, em dois dias [09 e 10/06/16], invisto mais de sete horas de trabalho fuçando na internet, home office do apê 703-B. Reúno artigos acadêmicos, uma dissertação, ensaios, reportagem, posts em blogs, notícias e até um relatório de exploração de 1903, além do verbete Maxakali no site Povos Indígenas no Brasil. Segue a lista dos PDFs baixados:


Durante a pesquisa, também salvo links de documentários para assistir: “Yiax kaax – fim do resguardo” (2010), “Xupapoynãg” (2011), “Yãmîy” (2011) e “Mîmãnãm: mõgmõka xi xûnîn” (2011), de Isael Maxakali, e “O povo do canto – Maxakali” (2013), de Marcelo Brum.

Mapa da Bahia com as locações do romance

MAPA DA BAHIA

Sabadão 11/06/16 na função de “Muralha”, apê 703-B. De manhã, unas cositas de estrutura, ordem de capítulos, rever e tal; aproveito para consertar a localização de Bom Jesus da Lapa no romance.

À tarde, pesquiso sobre Caraíva e a Aldeia Mãe Barra Velha, e decido pôr um mapa da Bahia no livro, para ilustrar todas as locações de “Muralha” [aquela criança fã de Geografia adorou isso!]. O problema: não quero pagar por isso. A solução: crio o bendito por conta própria [a partir de um molde baixado na internet]. Só termino de editar o mapa no final do mês [30/06/16], a inseri-lo no original.

PS: De volta ao sabadão 11/06/16, após o trampo, à noite, crepe à beira da Baía de Todos os Santos com a namorada inspira a criação da Trip Muralha, que fica pronta no dia seguinte. Uma pena que não a colocamos em prática. Os anos passaram, a vida seguiu, e eu, até o momento do post, ainda não fiz a trip. Afirmo: um dia, farei! Segue abaixo, já atualizada para Trip oroboro baobá [Bahia-Minas].


Flávio Bustani na época das nossas festas com a galera da Facom-Ufba [compus “Lost Mails” nesse violão dele]

PRESENTE DE FLÁVIO BUSTANI

Na função de rever todos os capítulos do romance, raciocino melhor sobre a pesca em Caraíva e desconfio que cometi um erro. Consigo o contato de um ex-colega da Facom, o produtor e músico Flávio Bustani, formado em jornalismo, que estava morando e trabalhando em Caraíva. Mando para ele a dúvida: onde se pesca no vilarejo, no rio ou no mar?

Segunda, 13 de junho de 2016, manhã. Por mensagem, Flávio Bustani oferece o seu presente ao romance: em Caraíva, o trabalho da pesca é feito no mar e não no rio, onde só se pesca por diversão. Bingo! Valeu, Lázaro! [saudades do nosso projeto engavetado LÄZRE, com poemas do meu pai e sonzeira com José Enrique Iglesias & cia] Junto a Darino Sena, Ivan Dias Marques, Rodrigo Minêu e Filipe Sousa, a Facom-Ufba representa em “oroboro baobá”!

Graças a Flávio “Lázaro” Bustani [rebatizo o dono do bar em Caraíva como “homenagem” a ele], posso corrigir esse erro grave, o que faço prontamente no home office do apê 703-B, a escrever o original do xodó “O motor espuma o seu rastro pelo Oceano Atlântico”.


AMANHÃ, ONTEM, AGORA

Ainda na segunda 13/06/16, só que à tarde, no apê 703-B, invento que os títulos das partes do romance não estão legais, e trago a premissa “filosófica”: modifico “Imbatível” para “Tudo o que nos forma”, “Muralha” para “Amanhã”, “Miwa” para “Ontem”, e “Mbira” para “Agora”. Ou seja, os capítulos que faltam, são todos da parte “Ontem”, que vem depois de “Amanhã”, e antes de “Agora”. Bingo! Adorei! PS: mais atraso; invisto tempo revendo capítulos iniciais, ao invés de escrever.

Entrada da Aldeia Mãe Barra Velha, vizinha à Caraíva, via Google Street View

O VELHO ALDERICO

Terça, 14 de junho de 2016, tarde. Após uma manhã “do jeito que eu gosto” no estúdio Casa das Máquinas, em que gravei o violão de “A Reflex, A Nightmare” para o “Fluid”, do Orange Roots, o PCzão pifa, e Sarah me empresta o seu laptop para o trampo “Muralha” não parar [até o momento desse post, nunca tive um laptop; no máximo, um tablet]. A pesquisar sobre os índios pataxós, apê 703-B, decido modificar os personagens Burianã, O Velho e Alderico, e inserir novos trechos sobre a Aldeia Mãe Barra Velha. Vamo fazer isso? Nada. Rever como fuga, e tome-lhe capítulos revistos.

Dois dias de “folga” no romance, estou na sexta, 17 de junho de 2016, com o PCzão [com placa mãe nova] de volta ao apê 703-B, para fazer as alterações pensadas. O dono do barco Correnteza, chamado inicialmente de Capitão, passando um tempo como o pataxó Burianã, deixa de ser índio e é fundido ao personagem O Velho, que passa a ser o seu apelido, e é rebatizado de Alderico [uma “homenagem” a um amigo do meu pai]. O Alderico de então ganha o nome de Josias. E Burianã é um dos pescadores que trabalham para o novo [O Velho] Alderico.

Revejo o cap. 2 e escrevo o original do xodó “Burianã, que canta sobre uma lenda em que o magnífico se materializa na forma de um ente que distorce o tempo e habita o espaço entre as palavras”. Faço as alterações em outros capítulos, também.


BURIANÃ E A QUESTÃO PATAXÓ

Sábado, 18 de junho de 2016, manhã. No apê 703-B, revejo o cap. 10. Faço uma boa pesquisa sobre os pataxós, as suas questões sobre o território, os problemas com os fazendeiros da região, mais informações sobre a Aldeia Mãe Barra Velha, enfim, uma hora e meia só lendo notícias e artigos na rede. Somada à pesquisa da terça 14/06/16, agora sim, sinto-me pronto para melhorar a parte pataxó no romance. Entretanto... a luz acaba. Putz! Não quero perder o embalo.

Sarah Fernandes me socorre e topa emprestar o seu laptop, de novo [mais ainda: um cantinho no seu lar pr’eu trabalhar]. Depois de muito tempo produzindo o romance no apê 703-B, escrevo noutro lugar além do meu lar: apê de Carlos Barbosa e Mônica Menezes, 7º andar do Edf. Silverstone.

Em três horas de trabalho, crio um trecho-xodó, de muito apreço, na abertura do cap. 8 [intro do baba na aldeia], com informações sobre a Aldeia Mãe Barra Velha, a questão pataxó, a origem e as angústias de Burianã [e o seu affair com a colecionadora de raças na sua prole] — torno esse personagem mais interessante, um pataxó que largou a aldeia e quis ser acolhido na comunidade de Caraíva, só que se frustra com isso e se sente desterrado [e é quem encontra Muralha no rio] —, e o original do xodó “o neo-brasileiro deprecia e exclui o autóctone, a considerá-lo um desperdício, um estorvo a ser removido, como a árvore que atrapalha o pasto, o animal a ser abatido”.


Na terça 21/06/16, apê 703-B, termino de incluir a questão pataxó no romance, revendo várias partes do cap. 8, criando a cobrança do cacique para Marcelino ajudar na causa [escrevo os originais dos xodós “Marcelino não acredita na capacidade gestora dos índios e considera a reparação uma tolice ideológica; segundo ele, o passado é morto, e o presente não deve pagar a conta” e “Marcelino esfrega os cabelos de um curumim e o devolve ao colo da mãe. Se precisasse de votos, estaria eleito”], mais informações sobre a Aldeia Mãe Barra Velha, a treta entre Kuparaká Auptxuy e Marcelino [crio os originais dos xodós “um índio mais velho (...) impõe a sua sentença (...) Terra sagrada! Vai perder! Porto Seguro não ganha! (...) Marcelino desdenha (...) O sagrado sou eu” e “O empresário não se esquece do índio mais velho (...) Gosto da sua terra... Acho que tem potencial para um resort temático”], a bênção de Kuparaká a Muralha, entre outras novidades.


REVER O AMANHÃ

Em dois dias [22 e 24/06/16], invisto mais de cinco horas de trabalho para rever todos os capítulos da parte “Amanhã”. As duas restrições estão 100% ajustadas [gênero de Muralha pelo narrador e tempo verbal no presente, exceto mais-que-perfeito], além de pequenos retoques, tudo que pudesse evitar que eu escrevesse algo novo. Que preguiça, aff... [na última semana de junho, abandono o romance pelas gravações do Orange Roots e pela gestão de crise do evento Flica na Caixa].

Vários momentos da gravação de Fluid, Orange Roots, em 2016

A PAUSA EM JULHO

Desde metade de abril que vinha embalado com “Muralha”. Cansei. Vou dar uma pausa, em prol da música e da Cali. Entonces, finalizo a produção do álbum “Fluid”, do Orange Roots, no estúdio Casa das Máquinas [ficou pronto em 12/07/16, mas só foi lançado em 27/09/19, uma gaveta angustiante]. Gravo vídeos recitando poemas do “Nostalgia da lama” e os subo no YouTube [mais à frente, deletados].

Em dois dias [08 e 09/07/16], a Cali e a Icontent produzem o evento Flica na Caixa [seria mais um lançamento da Flica na Caixa Cultural de Salvador, como em 2015, mas com a mudança no Governo Federal, houve incompatibilidade com o patrocinador máster, o Governo da Bahia], com cinco mesas literárias e programação infantil, sucesso de público, tudo lotado.

Lembranças das Mesas Literárias da Flica na Caixa 2016. Fotos: Egi Santana

Pronto, tô no meio de julho, dá para retornar com “Muralha”. Quiii... Cadê a inspiração? Foco no trampo Flica, e arrumo outras coisas para fazer, além de finais de semana de lazer com a namorada. O mais belo: sexta, 22 de julho de 2016, realizo o sonho da minha mãe e produzo a gravação profissional da sua música “Se os Sentimentos Falassem Sozinhos”, letra da minha irmã Regina, no estúdio Casa das Máquinas.

Com Tadeu Mascarenhas na sanfona e piano, e Mou Brasil no violão, a minha mãe, Martha Anísia, com 78 anos, grava a sua voz pela 1ª vez num esquema profissional. Sarah Fernandes faz fotos belíssimas. Manhã & tarde muito feliz, especiais, eternas [o objetivo era disputar o Festival de Música Educadora FM, mas a música nem foi selecionada entre as 50, uma pena; ao menos botei a música no mundo, via YouTube].

Martha Anísia, Mou Brasil, Tadeu Mascarenhas e eu na gravação de “Se os Sentimentos Falassem Sozinhos”. Fotos: Sarah Fernandes

Na segunda 25/07/16, reúno-me com a diretora e roteirista Gabriela Leite, e discutimos projetos para parcerias no audiovisual [“óia eu aqui de novo, xaxando!”]. Havíamos tido uma sintonia afetiva em 2015, interrompida porque ela se mudou para a França. Ficou o respeito e o carinho. Tentamos traduzir isso com trabalho. Em dois dias [27 e 29/07/16], faço uma revisão editorial e consultoria para o roteiro do curta “Felicidade” [a autora Gabriela adorou o resultado e me inseriu como coautor]. Volto a me empolgar com o audiovisual; credito essa parceria como promissora!

“Se os Sentimentos Falassem Sozinhos”, de Martha Anísia, feat. Mou Brasil e Tadeu Mascarenhas. Ouça no YouTube aqui

“1º DE AGOSTO, ESQUECI O DESGOSTO”

Tento retomar a produção literária de “Muralha” na quinta 28/07/16, mas não tenho motivação. Daí, na manhã do dia seguinte, ao acordar, avisto um arco-íris perfeito, da janela do meu quarto. Interpreto como presente do astral: “Muralha” trará a abonança! Estou cheio de motivos! Vou recomeçar na segunda! [nem me abalo com a notícia, na manhã da mesma sexta 29/07/16, que o meu livro de contos “O grito do mar na noite” perdeu o Prêmio Guavira de Literatura 2016].

Assim como a canção da banda mineira Transmissor, esqueço o desgosto e retomo o romance em 1º de agosto. Manhã, apê 703-B, recupero a ordem original das partes do passado de Miwa [decidi, no final de maio, não mais apresentá-las como uma investigação de Sanfilippo]. Durante o dia, formo o cap. 3 [relembrando: essa numeração é da versão final desse ano], ao rever e juntar o 2 com o 4 [ambos “Antes da Seleção”] + duas cenas arquivadas do 4º tratamento.

Algumas novidades: quem está senil é o avô de Miwa, e não mais a mãe; insiro a caminhada até a casa de Edir, o assédio dos homens da mudança, o preconceito da patroa; crio o motivo “estranho” de Miwa topar a proposta de Edir, a escrever o original do xodó “Há algo que se impõe à jovem como irrevogável, um fado, o chamado que não se compreende o motivo e que a faz reorganizar os seus planos, sem consultar ninguém que a ama e se preocupa com o seu bem-estar. Ela simplesmente obedece e vai seguir no fluxo” [cap. 3].


SANTOS & MAXAKALIS

Terça, 02 de agosto de 2016, manhã. No apê 703-B, formo o cap. 6, ao rever e juntar o 7 com o 10 [ambos “Antes da Seleção”] + uma cena arquivada do 4º tratamento. Algumas novidades: melhoro o interesse de Miwa pelo fotógrafo; escrevo os originais dos xodós “está a refletir sobre o trabalho de empregada doméstica, e se incomoda, cada vez mais, com a falta de clareza do que é pessoal e o que é profissional, os limites que não são respeitados” e “Dois sentimentos alvoroçam a respiração e desaguam no íntimo, ao mesmo instante, entrelaçados, a alimentar de novas sensações os nervos da pele e a preencher a parte inexplorada do coração”.


Insiro que o retrato de Miwa é o registro do momento em que ela se apaixona pela 1ª vez [pelo fotógrafo], e as reações da família com a sua ida a Bom Jesus da Lapa; crio um amasso dentro do carro e escrevo o original do xodó “Ela, virgem, à beira do naufrágio, sente o perigo de realizar o seu desejo exposta à rua e freia a ação, retornando ao banco do passageiro”; troco o garçom por um caminhoneiro assediador, e melhoro o texto [destaque para o original de “mal-acostumado em tocar nas mulheres da mesma maneira que arranca uma fruta do pé, considerando-as disponíveis, a qualquer momento, basta que as suas mãos as alcancem”].


Pela tarde, decido retomar a negra família Santos para as matriarcas de Miwa: as duas deixam de ser Maxakali, a assinar como Benivalda Santos e Bartira Santos [assim como o filho, Mbira Santos]. Porém, os índios do Vale do Mucuri terão espaço no romance, e haverá um vínculo das negras com uma mãe índia, que nomeio de Nara Maxakali. Nesse embalo, e com o pouco de conhecimento que obtive com a pesquisa [devo ter lido uns 40% do que baixei], escrevo os três primeiros parágrafos do cap. 28, um resumo das informações sobre os Tikmũ’ũn [real nome dos Maxakalis], e um perfil muito interessante para a educadora Nara, cuja família conhece Dona Tonica há anos [para tanto, vou modificar a profissão da negra, de historiadora a antropóloga especialista em questões indígenas], e também tem problema com o companheiro [assim como Benivalda].

É um trecho que gosto muito, principalmente o xodó “Os Tikmũ’ũn são conhecidos pelo nome genérico de Maxakali, que é uma palavra que não faz parte da sua língua e designa uma reunião de tribos — a confederação dos sobreviventes da barbárie perpetrada por senhores e homens da população regional, legitimada e estimulada pelos governantes, em prol da expansão da fronteira agrícola, do litoral ao interior, e de um projeto colonizador dedicado à conquista dos territórios indígenas, em nome da implantação da unidade nacional, a provocar matança, estupro, roubo e escravidão”.


MBAMBA

Em junho de 2016, havia decidido vincular Bartira e Benivalda à Dona Tonica: elas teriam um mesmo ancestral, que foi escravizado e transportado da África ao Brasil. Hoje, 03 de agosto de 2016, começo a criá-lo [intuo que ele deva vir do Congo]. Manhã, apê 703-B, invisto duas horas a pesquisar sobre: o Reino do Kongo, a escravidão em Minas Gerais e nomes africanos. Decido batizar o ancestral de Mbamba. Construo a sua personalidade, a família, o trabalho como mineiro. Então, às 11h20, começo a escrever o cap. 9, a estreia de Mbamba no romance.

À tarde, invisto uma hora e meia para pesquisar sobre o tráfico de escravos, as rotas, portos e o Reino do Kongo. Continuo a escrever o cap. 9, um trecho bem duro, sobre a escravização de Mbamba, a destruição do seu lar, morte de familiares e amigos, e o bizarro transporte até Luanda. É doloroso, cruel, gera raiva e tristeza, um retrato da macabra história que tanto vitimou e machucou. Considero o trecho com qualidade literária, e o que mais me emociona é o original de “No jantar, força-se a engolir o alimento que o manterá de pé, a resistir às lágrimas que escorrem e se misturam ao conteúdo da tigela de barro, e tenta honrá-lo; é preciso caminhar quando amanhecer, e será por elas, as suas amadas, das quais provavelmente nunca mais saberá qualquer notícia”.


Na manhã da quarta 04/08/16 [no apê 703-B, assim como nos outros dias abaixo], para ser coerente à premissa “filosófica”, modifico o título da última parte, de “Agora” para “Hoje”. Revejo o que escrevi da parte “Amanhã”, pesquiso e troco palavras repetidas em diversos capítulos. À tarde, começo a escrever o novo esqueleto dos capítulos que faltam, e defino sobre os ancestrais de Dona Tonica e Bartira/Benivalda: crio a ideia dos dois ramos, o que tem sucesso e o que passa dificuldades.

Mbamba, que é bom, nada. O começo do cap. 9 foi uma pancada, e me exige uma pausa. Em dois dias [05 e 08/08/16], interrompo “Muralha” para organizar uma antologia com os meus contos [15] e poemas [51] prediletos, e editoro um PDF completo [capa e contracapa de Sarah Fernandes, design meu], antecipando o que eu farei a partir de 2017 com o meu trampo literário [batizo-a de “Quem se habilita a colorir o vazio?”, reciclado de um post/poema de Gil Jorge]. A ideia é enviar para pessoas do meio literário [não levo à frente], e para o meu próprio consumo [ainda não havia sacado a tentação de publicar no blog].

Adoro os poemas visuais do paulista Gil Jorge. Este post se eternizou em mim

As Olimpíadas 2016 começam, e eu só quero saber do judô. Assisto todos os dias, todas as lutas que são transmitidas, e isso atrapalha a criação em “Muralha” [atrapalha até o que poderia ter sido um sabadão de farra, niver da namorada, em 06/08/16 — ao menos, um rolé pelo Santo Antônio Além do Carmo e um belo jantar em família, à noite]. Torço pelos judocas brasileiros [bravo, Rafaela Silva!], mas a torcida maior é pelo Japão. E dá gosto presenciar as medalhas de ouro dos judocas japoneses.

Nessa semana dedicada ao judô olímpico, só trabalho dois dias no romance [09 e 10/08/16], por pouco tempo, para finalizar o esqueleto e rever os capítulos 3 e 6. Retorno à criação de Mbamba no sábado, 13 de agosto de 2016, à tarde [em que termino de ler o vol. 1 de “Histórias da Gente Brasileira”, de Mary del Priore, e começo a ler “O Diabo & Sherlock Holmes: histórias reais de assassinato, loucura”, de David Grann]. Ao todo, invisto quase oito horas, por três dias [13 a 15/08/16], para finalizar o duro cap. 9, retratando o absurdo: transportado num tumbeiro, Mbamba é forçado a ir ao Brasil, e trabalhar, como escravizado, numa lavra de ouro em Minas Gerais [reaproveito o nome cristão de José, de volta ao romance].


AGOSTO NA FUNÇÃO

Agora o negócio vai embalar! Tô empolgado com o romance, aliviado de outros trampos, vou de sola! #partiu [o trabalho é todo feito no home office do apê 703-B], daquele jeito:

Segunda, 15/08/16 [02h e 20min | manhã & tarde] — Revejo a ordem dos capítulos do esqueleto e escrevo o começo do cap. 13 [Mbamba consegue comprar a sua liberdade e prospera como José], com direito ao original do xodó “Mbamba faz o escravo José se destacar entre os demais mineiros” [a marcação de que José foi para Mbamba um instrumento: primeiro, o escravizado a ser superado; depois, o disfarce para prosperar numa sociedade racista].


À tarde, começo a formar o doloroso cap. 21, a partir do 12 [“Antes da Seleção”], sobre a agressão do fotógrafo em Miwa [retiro a parte do agente de saúde; a violência física ocorre logo após a padaria], e escrevo o original de “Miwa se amedronta com a escalada das ameaças e dos abusos do fotógrafo (...) arrepende-se de ter ido embora de Bom Jesus da Lapa e se sente tão frustrada e retraída que tem vergonha de pedir ajuda à mãe e à avó”.


Terça, 16/08/16 [02h e 20min | tarde] — Mesmo com o pulso machucado [busquei atendimento médico pela manhã; diagnóstico: tendinite], continuo a trabalhar na 1ª parte do cap. 21, a partir do 12 [“Antes da Seleção”]. Faço mais cortes no texto, a limpar excessos e a tentar dar um ritmo mais eficiente à [terrível] cena; insiro a ligação para a mãe Bartira [a 1ª que Miwa tenta; ela nem se lembra de ligar para a polícia]; modifico a ordem: depois da mãe, Miwa tenta ligar para a avó, e não para Edir [1ª parte do cap. 21].


Quarta, 17/08/16 [04h e 30min | tarde & noite] — Termino de escrever a 1ª parte do cap. 21 [e mais o trecho do reencontro de Miwa com Dona Tonica na churrascaria, 2ª parte do 21], a partir do 12 [“Antes da Seleção”]. Algumas novidades: é um senhor que expõe o seu racismo no ônibus contra Miwa, e não mais uma senhora; insiro que o fotógrafo continua ligando para ela [acredita que vai atender e voltar para ele]; crio a justificativa do ambulante não ajudar; dou um grau no texto, Miwa ajudada pelo caminhoneiro “anjo protetor”, e crio a dolorosa cena da pousada em Cândido Sales [1ª parte do cap. 21].


Pousada à beira da rodovia em Cândido Sales [até a publicação desse post, eu nunca visitei] via Google Street View, que serviu de modelo

Percurso da “carona” do caminhoneiro para Miwa, de Vitória da Conquista a Itaobim, via Google Maps

Posto em Itaobim [até a publicação desse post, eu nunca visitei] via Google Street View, onde Miwa pediu para ficar, porque não aguentava mais ter de ficar próxima a um homem

Crio uma nota explicando a origem do nome da cidade de Teixeira de Freitas [faço a nota como uma “homenagem” ao site do IBGE, que muito me ajudou nessa jornada]; alguém do grupo de amigos toca “Meu bem”, e não mais Luís Capucho num vídeo que eles assistem; escrevo os originais dos xodós “Na mesa ao lado, uma senhora gosta da música e acha interessante a invenção, para si, de um bem” e “Na sincronia dos inúmeros caminhos e descaminhos, que faz da vida uma beleza improvável para uns, previsível para outros, ela reencontra a filha da amiga Bartira”; revelo que Miwa está com uma barriga de grávida “à beira do parto” [2ª parte do cap. 21].


Homenagem da Câmara Municipal de São Francisco do Conde ao filho ilustre da terra, Mário Augusto Teixeira de Freitas [nascido em um dia 31!], o notável que criou o IBGE [saiba mais aqui]

Quinta, 18/08/16 [08h e 40min | da manhã à noite] — Pela manhã, revejo a 1ª parte do cap. 21 e escrevo, do zero, trechos sobre Mbamba e o seu legado no cap. 13 [e a sua morte-xodó: rodeado pelos diversos herdeiros, transcende de volta à sua aldeia, a reencontrar a família congolesa], criando a sua primogênita Bárbara, ancestral de Dona Tonica, e o original do xodó “a gestora dos principais negócios da família, preparada para a tarefa desde pequena — uma inovação dos Amaral Corrêa de cor negra”.


À tarde, invisto mais de quatro horas para criar uma origem mais elaborada de Dona Tonica, e a sua relação com o marido, baseado em trechos de um parágrafo do 16 [“Antes da Seleção”]. Algumas novidades: modifico a profissão de Dona Tonica, de historiadora para cientista social e antropóloga, com doutorado na França, especialista em questões indígenas, professora da Ufba; escrevo o original do xodó “Ela não está satisfeita com as limitações do trabalho nem se engaja na resistência contra a ditadura militar no Brasil — não compactua, tem repulsa, mas não promove a contestação ou o combate franco”; crio a alcovitagem das amigas em Itaparica [cap. 13].


Invento a relação apaixonante de Dona Tonica com o homem “longilíneo e de olhos claros”, “um caso à beira-mar”; escrevo o trecho-xodó “ele/ela”, quando Dona Tonica vai testar o romance em Minas Gerais, e se encanta pela recepção e carinho dele, com direito aos originais dos xodós “Ela sente falta do mar, mas se habitua aos morros e à culinária; adequa-se ao ritmo do interior, mais cúmplice aos novos objetivos de repensar a vida e se refazer como mulher e profissional” e “Ela, que desde a conquista da independência financeira jamais fora sustentada por um homem, recusa implícita da sua afirmação como mulher capaz, diverte-se com a sensação do ‘por que não?’” [cap. 13].


Dona Tonica se casa, e eu modifico o nome do marido, de José para Ranolfo, mais condizente à sua ascendência germânica; invento a origem dele, e aproveito para trazer informações históricas de Nanuque, ligadas ao nome indígena; amarro a ligação de Dona Tonica com os Maxakalis, e explico a origem do apelido de Antônia Sampaio Sommerlatte; faço a conexão da pesquisadora com Bartira, e escrevo o original do xodó “Dona Tonica sente um alívio, mas desconhece o motivo”.


À noite, após mais uma sessão de leitura com Sarah [mudanças a serem feitas devidamente anotadas], tiro a dúvida sobre o trabalho de Dona Tonica [a questão da pausa na Universidade para casar] com o amigo escritor Carlos Barbosa.

Sexta, 19/08/16 [02h e 20min | manhã & tarde] — Pela manhã, revejo o cap. 13. À tarde, continuo a rever o cap. 23 [da treta no iate até o acerto no gabinete do prefeito], não me lembro o motivo.

PS: Em três dias [21, 23 e 27/08/16], Sarah me ajuda a gravar os vídeos comigo recitando trechos do livro “Olhos abertos no escuro” [assim como os vídeos de “O grito do mar na noite” e “Nostalgia da lama”, tiveram uma pífia visualização no YouTube, e eu os retirei da internet].

É tempo de criar uma árvore genealógica e o movimento dos seus ramos. Na foto, registrei “o lar das crianças peculiares” no Parque da Cidade, em Salvador

A SAGA DOS ANCESTRAIS DE BARTIRA

Mbamba. O filho deserdado. O neto ferreiro. O bisneto matador. O abneto cigano. Benivalda, tataraneta, empregada doméstica e herdeira de um Lanceiro Negro. A história de cinco gerações do ramo que passa por dificuldades, até chegar em Bartira. Filhos únicos, órfãos, adotados com amor ou não. Uma dolorosa jornada em movimento, transitando pela história e lugares do Brasil, apresentada como um conto. Um dos trechos mais longos de “oroboro baobá” [assim como o baba na aldeia e o ritual em Madagascar], que me orgulho muito de ter feito.

Invisto quase 25 horas de trabalho, em seis dias [19, 22, 24, 25, 26 e 29/08/16], para escrever a saga dos ancestrais de Bartira, toda escrita no home office do apê 703-B. Quase tudo do zero, exceto o original de “Ela vai se chamar Bartira, como a sua filha” [uma reconfiguração de “Ele vai se chamar José, com o seu bom marido”, dito de Maria para Tonica, presente no 18 da parte “Antes da Seleção” — a intenção é a mesma: batizar um filho em “homenagem” a um ente querido de alguém próximo] e dois parágrafos do 4 [“Antes da Seleção”], reconfigurados, sobre o genitor de Bartira [o “amigo da mamãe”, filho do jardineiro, criminoso] + o xodó “as economias escondidas nos mistérios da pequena casa”.

Por falar em xodó, são muitos nessa saga pela sobrevivência; consumiria muito espaço desse post ao mostrá-los. Melhor divulgar todo o capítulo original [lembrando: trecho sem revisão ortográfica, sem receio de expor as deficiências, como os demais].


Durante a feitura dessa saga, divido o meu tempo de escritor com o trampo de curador da Flica 2016; aniversário de namoro; gravando e divulgando vídeos do livro “Olhos abertos no escuro”; começando a assistir à série “Lost” [pela 1ª vez]; levando o PCzão na assistência; consulta com médico sobre a tendinite no pulso esquerdo; final da leitura de “O Diabo...”, de David Grann, e início do romance “A gloriosa família — O tempo dos flamengos”, do mestre Pepetela; visita de condolências à amiga e ex-sócia Edmilia Barros [perdeu o irmão Sandro]; e assisto ao filmaço “Agnus Dei” (Les innocentes, 2016), de Anne Fontaine.

The Baule Kpwan Mask, via African Art Gallery, que inspirou a criação da entidade Mokamassoulé, a dançarina

O FANTÁSTICO SE ANUNCIA

Não me lembro de que lugar na internet avisto essa máscara. Só sei que, quando a vejo, acontece um estalo. “Guarde”. E eu guardo. Baixo a foto, creditada pelo site forafricanart.com [da norte-americana African Art Gallery, na Flórida], e faço um post na noite da quarta, 31 de agosto de 2016, no meu Facebook, com um link dela no site e a descrição [que havia lá; atualmente, fora do ar]:

The Baule Kpwan Mask is a female mask, which in several villiages represents the goli glin’s ‘wife’ (goli yi). Praised as ‘the queen of goli’, and therefore the most important figure in the cult, it only appears in exceptional circumstances. Sometimes occurring in pairs, it celebrates adults who possess the virtue of founding a family, and in its shape and function it is linked to the world of the village”.

“Prepared in the depth of the sacred woods, the dancer, always a man, is clothed with great care, as if he were a young woman on her wedding day, and when he appears on the path; leading to the village from the heart of the bush, he is sometimes carried like a baby on his companions’ back so as to not get dirty. It is said that some even warn their children to wash their faces before looking at him, to avoid offending the mask”.

Em setembro, utilizaria da máscara e da descrição acima para compor a personagem fantástica Mokamassoulé, a entidade dançarina.

The Baule Kpwan Mask, outro modelo [foto daqui]

Lamento que não tenho o registro da data em que decidi criar as entidades, da data em que comecei a aplicar o fantástico [de forma efetiva] no romance. Sei que foi nessa época, agosto & setembro/2016, que decidi inventar seres fantásticos, e não me utilizar de entidades já veneradas por religiões, como respeito à crença alheia.

Na quarta 31/08/16, em que o fantástico se anuncia ao romance, invisto quase sete horas para iniciar o cap. 19 no apê 703-B: reciclo os trechos sobre Mucuri do 16 [“Antes da Seleção”], a inserir informações sobre o Bacurizeiro e o seu fruto bacuri [o que acho simbólico, pois será nesse capítulo que Bartira irá encontrar Miwa e adotá-la], e a criar que Bartira vai trabalhar na casa de praia de Dona Tonica e resolve morar em Mucuri, começando uma nova etapa de vida, após uma visão com uma entidade [ainda sem nome; por isso, prefiro mostrar esse trecho quando já tiver definido a personagem] — insiro a informação de que Bartira é lésbica.


No dia anterior, terça 30/08/16, apê 703-B, à tarde, formo a 3ª e última parte do cap. 21, a partir do 14 e um trecho da 1ª parte do 16 [ambos “Antes da Seleção”]. Algumas novidades: insiro a info de que a família de Dona Tonica se preocupa com ela dirigindo em estrada; invento o trecho-xodó de Dona Tonica a lamentar não ter tido filhos, mesmo sendo fértil, com direito ao original do super-xodó “mais uma ramificação da linhagem de Mbamba no Brasil é interrompida; as perdas, porém, são mínimas, pois são tantos descendentes que, talvez, até você possua os genes dele, ou algum dos seus, mais à frente, vai se miscigenar com o fruto do súdito do Reino do Kongo” [3ª parte do cap. 21].


Escrevo o desabafo de lágrimas de Miwa, um trecho bem forte, mas que mora no meu coração: acho que tem qualidade literária, como os originais dos xodós “O abraço é o retorno à superfície, dentro da redoma, de céu escorado e prestes a desabar o entulho que pretende o esmagamento; como o espaço apertado de um beliche, a avistar o fundo do colchão de cima, e há outro colchão acima deste, e outro, e outro, e outro” e “Acaricia as mãos e o rosto de Miwa, tenta confortá-la com um timbre suave, lento, a recordá-la de que é preciso respirar e que ela está segura na sua companhia, nunca haverá o abandono”; introduzo que Miwa não quer o filho [3ª parte do cap. 21].


A belíssima víbora verde de Gumprecht, uma fêmea, que inspirou a criação da entidade Makonga, a mensageira. Essa fotaça está creditada a René Ries [segundo a WWF]

SETEMBRO NA FUNÇÃO

Assim como a foto da máscara baoulé, não me lembro de que lugar na internet avisto essa lindíssima foto da belíssima víbora verde de Gumprecht [Trimeresurus gumprechti]. De novo: só sei que, quando a vejo, acontece um estalo + “guarde” + eu guardo. Faço um post com ela na tarde da quinta, 01 de setembro de 2016, no meu Facebook. 22 dias depois, utilizaria da víbora para compor a personagem fantástica Makonga, a entidade mensageira.

Bom, setembro chega, e que mês maravilhoso para o romance! É aqui, no nono mês de 2016, que crio as entidades e a divindade, a parte mágica do livro, que tanto amo! Mais aliviado do trabalho da Flica [desde que a criei em 2009 com os sócios], por estar apenas atuando como Coordenador Geral [reuniões semanais com a Icontent, orientando o trabalho dos produtores contratados] e Curador [bom demais não me ferrar de trabalho com a logística], posso me dedicar ao romance com intensidade [trabalho 26 dias em setembro; levo até 12 dias direto, sem parar]. Ô, sorte! Simbora [o trabalho é todo feito no home office do apê 703-B]:

Quinta, 01/09/16 [05h e 40min | da manhã à noite] — Revejo os últimos capítulos feitos. Depois do almoço com Sarah, continuo o trabalho no cap. 19, criando a parte que Bartira se estabelece em Mucuri, numa nova fase de vida como empreendedora. Defino que Bartira vai encontrar o bebê Miwa no mangue de Mucuri, próximo da foz do rio [2ª parte do cap. 19].


Mucuri, Bahia. Foto de drone por Nortonglay de Paula Matos

Em fev/2018, faço um post no meu Facebook dessa foto, com a seguinte legenda: “Mucuri é a última cidade da Bahia ou a primeira do Nordeste para quem o acessa via litoral, divisa com Minas Gerais e Espírito Santo, uma das encruzilhadas-locações mais importantes do meu primeiro romance. Ao final dessa curva aí, o rio Mucuri encontra o Oceano Atlântico na sua foz. Pois é nesta curva que uma das personagens principais é encontrada, dentro do mangue, após sonhos e visões com entidades fantásticas, por uma mulher que até então desprezava ser mãe e ter uma família, ex-empregada doméstica e recém-microempreendedora, e que vai adotá-la e criá-la nessa cidade de Mucuri, extremo sul da Bahia, onde fica a última (ou a primeira) praia nordestina: Riacho Doce”.

Pois na sexta 02/09/16 [em que trabalho 05h e 30min, manhã & tarde], escrevo a 1ª versão desse trecho-xodó [ainda definirei melhor as entidades; por isso, imagem do trecho mais à frente], na 2ª parte do cap. 19, com direito a uma nota explicando o significado do nome Miwa.


Nessa nota, incluo a explicação de Alpha Blondy, garimpada em jun/16, de uma entrevista num site em 2013, posteriormente apagado da internet. Sorte que, ao escrever esse post, pesquiso e encontro a bendita no site Seneweb [o outro deve ter copiado]. Segue abaixo o trecho com a explicação do cantor e compositor marfinense:



Também em jun/16, faço um post no Facebook celebrando “Miwa”, reproduzindo a fala de Alpha Blondy. Daí, nessa sexta 02/09/16, pesquiso sobre a canção e não encontro a sua tradução [continua um mistério para mim], mas rende outra “Miwa”, com a marfinense Monique Séka. Garimpo uma fala da rainha do afrozouk sobre a canção [sem print, pois o site também tá fora do ar]: “En langue baoule, Miwa prie les enfants abandonnés de ne pas pleurer et de considérer leur mère adoptive comme leur véritable maman”. E divulgo a música num post no Facebook [ouça aqui].


Uma oração para que crianças abandonadas não chorem e passem a considerar a mãe adotiva como a verdadeira. Que sincronia! E Miwa se aconchega nos braços de Bartira. Sigo a escrever no cap. 19 na manhã e tarde dessa sexta. Reconfiguro um trecho do 18 [“Antes da Seleção”] na 3ª parte do cap. 19, a inserir uma “homenagem” à maravilhosa poeta Orides Fontela [o jornal Rascunho que a me apresentou, via “O enigma desvendado”, de Edson Cruz, na edição #194, de jun/16 — prontamente comprei “Poesia completa”, li e divulguei no meu blog], e os originais dos xodós de Benivalda não se importar que a filha seja lésbica, “Mãe... sou mãe”, Bartira querer registrar Miwa como filha biológica, e a escrivã cogitar recusar o nome, lembrar do seu e efetuar o registro, orgulhosa [3ª parte do cap. 19].


Termino de escrever o cap. 19 nessa sexta 02/09/16. Daí, numa brecha do sabadão com a namorada [03/09/16 | 50min | manhã], depois de uma leitura do cap. 19 com ela, revejo-o e faço pequenas mudanças. Daí... adiós, Mapa da Bahia! Do nada, bate a implicância e eu apago o bendito [nunca mais volta]. Não faço a menor ideia qual foi do ginge, só sei que adiós mapa [que deu um trabalho para fazer!]. Doido...

Segunda, 05/09/16 [06h e 50min | manhã & tarde] — Na 4ª parte do cap. 19: escrevo o xodó “Uma mulher como a senhora e mainha”; melhoro o resumo sobre a infância de Miwa e o trecho sobre o carma de Benivalda com o “amigo da mamãe”; reciclo um trecho do 16 [“Antes da Seleção”], a criar um trecho-xodó sobre a vida de Dona Tonica sem o amado Ranolfo [adoro como ela não dá chance à família dele, e se despede do companheiro jogando as suas cinzas no Oceano Atlântico]; melhoro o trecho-xodó da jovem Miwa com a sua avó Benivalda em Nanuque [4ª parte do cap. 19].


Revejo todos os capítulos da parte “Ontem” já produzidos. Começo a formar o cap. 24, a partir de um parágrafo da 2ª parte do 18 [“Antes da Seleção”] — melhoro o xodó da escalada “o tempo”, com os momentos de afeto de Miwa com o seu bebê, e crio o xodó “O tempo se estica como um elástico e quase se parte”.


Terça, 06/09/16 [03h | tarde] — Revejo uns capítulos da parte “Ontem” [rever É escrever]. Volto a trabalhar no cap. 24, mas logo paro [sem inspiração], criando um esqueleto para ele.

Quinta, 08/09/16 [05h e 40min | manhã & tarde] — Adivinhe? Revejo uns... você já sabe. À tarde, depois de almoçar com Sarah Fernandes, conversamos sobre “Muralha”, e eu decido modificar o final do romance [pense que não anotei qual mudança foi? Tá doido...]. No embalo, influenciado pela leveza de Sarah, corto um estupro coletivo que estava planejado [aff... chega de mais desgraça nesse livro!] — muito melhor que a retada & maravilhosa Nara Maxakali evite essa tragédia, não é? Antes do jantar, adivinhe? Revejo...

No feriado de sete de setembro, eu e Sarah catamos várias pedras na praia de Massarandupió, Bahia. Na sexta 09/09/16, seleciono seis delas, para representar os meus romances. De setembro a dezembro, coloco esta foto de Sarah Fernandes na capa do meu Facebook, para vibrar pela fortuna. “oroboro baobá” é a 2ª pedra. “A família K”, a última.

31 CAPÍTULOS

Sexta, 09 de setembro de 2016, tarde. No apê 703-B, depois de rever capítulos e o esqueleto do que falta pela manhã, um almoço “peba” no restaurante [delicadamente apelidado por mim de] “pobrão”, decido o que fazer no romance, revejo os agradecimentos e... nova rodada de “Capítulos Corridos x Partes”: desisto da estrutura dividida pelas partes “Tudo o que nos forma”, “Amanhã”, “Ontem” e “Hoje”. O negócio é misturar tudo. Tô nessa função, simbora!

Amo a data 31. Sempre achei a mais legal do nosso calendário, ainda mais que não tem todo mês. Inseri no romance, como “aniversário” de Muralha, desde 2013 [em “homenagem” ao amigo Lucas Sande, morto naquele ano, escolhi o 31 de outubro]. Daí, hoje, a minha maluquice vibra: quero que o romance tenha 31 capítulos. Cabô, se vira, mané! Analiso os capítulos já feitos para fazer as mudanças e junções, e elaboro a nova ordem/estrutura dos benditos.

No embalo das mudanças, altero a forma dos diálogos/falas, trocando o travessão pelas aspas [modelo norte-americano]. Acredito que tenha sido influenciado pelo formato de “aspas” do livro “O Diabo & Sherlock Holmes: histórias reais de assassinato, loucura e obsessão”, de David Grann, finalizado em 25/08/16.

Vamo nessa, 31, minha porra! Em quatro dias [10 a 13/09/16], invisto mais de 21 horas de trabalho para rever e juntar capítulos [formando os benditos que estou divulgando nesse post], e fazer fusões [várias forçações de barra] que permitam a quantidade total de 31.

Mbira, o instrumento percussivo e melódico, de textura doce [foto daqui]

O PARTO E ABANDONO DE MBIRA

Não tenho o registro da data em que decidi utilizar Mbira e criar Mkini como estratégia de confundir o leitor sobre quem é o goleiro [é o filho? é o irmão? é o companheiro de Miwa?] e qual a sua ligação com a história de Mbamba, Benivalda, Bartira, Dona Tonica e Miwa. Porém, sei que, na tarde da terça 13/09/16, apê 703-B, começo a inserir o irmão no romance, e escrevo o nascimento [ainda sem Mambezi, mas com uma entidade musicista que, na visão, entrega o instrumento mbira à Miwa, que se transforma num bebê, e ela acorda dizendo o nome do filho] e abandono de Mbira no cap. 24, orientado por essa estratégia, com destaque para a criação do original desse super-xodó:

“Ouve, a se anunciar da rua, um som diferente, percussivo e melódico, de textura doce, que evoca os caminhos distraídos e curiosos da infância, o curso fluvial, o gotejar de óleos escorridos de uma árvore notável, os pingos da lenta infiltração das águas nas grutas, o movimento contemplativo de um visitante nas profundezas do oceano”. Ah, lembro como se fosse hoje a forja desse super-xodó: a ouvir o som do instrumento no tema “Mbira”, de Ramiro Musotto e Santiago Vazquez, busco registrar as sensações que ele me provoca.


Concluo o cap. 24 na manhã da quarta 14/09/16, no apê 703-B. É uma parte dolorosa, difícil de ler, em que a jovem mãe, em choque, vê o seu bebê despencado no chão do quarto e permanece imóvel, até fugir da pousada [“suja de sangue e resíduos do parto”], abandonando o seu filho [que começa a respirar quando ela parte]. É duro, triste, mas considero que o trecho tem qualidade literária, especialmente o original de “A sugestão de harmonia entre a mãe Miwa e o filho Mbira, feita no extraordinário, é inútil; ela o rejeita, a enxergá-lo como a corporificação da violência sofrida, o legado do criminoso, o resultado da traição vil, do êxito do canalha; a lembrança que, judicialmente, será obrigada a manter viva e alimentada, a educar e proteger”.


DONA TONICA & MBIRA

Na tarde da quarta 14/09/16, apê 703-B, formo o cap. 26, juntando a 2ª e 3ª partes do 20 com o 22 + a 1ª parte do 24 [todos “Antes da Seleção”]. Algumas novidades: escrevo, do zero, os dois parágrafos iniciais do 26, com as reações da família Santos sobre o desaparecimento de Miwa, e a ajuda de Dona Tonica, com destaque para o “Mãe... Sou avó!” e o resultado da investigação do detetive: “Sem barriga” [cap. 26].


Escrevo o original do parágrafo-xodó, com a reação de Dona Tonica ao reencontrar a foto de Miwa [primeiro, a revolta com o fotógrafo violentador; depois, a conexão com a imagem da jovem no retrato], especialmente o original do super-xodó “Num instante, a chaga e a revolta; no outro, a transumância das lembranças de Dona Tonica, do acervo das memórias mais profundas à superfície do coração”; insiro a informação do silêncio de Mbira [pista falsa para associação com Muralha]; resumo a ação no quarto, pois o enredo é diferente de 2015 [cap. 26].


Melhoro o trecho do acidente, a informar mais sobre o bêbado assassino de Dona Tonica [está com pressa porque quer cagar em casa]; forço a barra, e tento colocar Marcelino como um culpado indireto pela morte de Dona Tonica e o rapto de Mbira; retiro o nome Breindel Zahavi da diretora do orfanato — é tão escrota, que não merece nome, como o fotógrafo [cap. 26].


Retiro o parágrafo com as informações históricas sobre Nova Viçosa [não considero mais essa locação com a mesma importância de Mucuri e Nanuque; por isso, o corte]; troco a naturalidade da diretora para escandinava; reforço o portão da parte “oculta” do orfanato [de madeira a robusto de ferro; protejo mais o local, com a parte mais alta dos muros e um aspecto de forte]; escrevo o original do xodó “O graúdo investiga o inédito em vez de temê-lo”; troco a cor da sala, de branca a amarela; insiro mais uma pista falsa: a diretora identifica Mbira como “Indivíduo 23”, o mesmo número da camisa de Muralha [cap. 26].


NARA & LUZIA MAXAKALI

Depois de rever o cap. 26 na manhã da quinta 15/09/16, apê 703-B, retomo com determinação o cap. 28 [iniciado lá em 02/08/16], que insere os Maxakalis no romance. Pesquiso sobre os ancestrais brasileiros, foco na Luzia que, segundo a Wikipédia, “é o fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca de 12.500 a 13.000 anos, que reacendeu questionamentos acerca das teorias da origem do homem americano”. Maravilha! Presto uma “homenagem” à Luzia, e dou o seu nome à filha de Nara Maxakali.

Crânio de Luzia [foto de Gian Cornachini]

Em quatro dias [15 a 18/09/16], invisto mais de 14 horas de trabalho para criar a saga Maxakali no cap. 28 do romance. É uma parte-xodó [com vários trechos que gosto muito], principalmente por expor o descaso e a violência dos neo-brasileiros contra os indígenas.


Passeando pela cidade mineira de Ladainha [até a publicação desse post, eu nunca visitei] via Google Street View, inspirei-me nessa casa para criar “um bar que funciona no térreo de uma casa que, no andar superior, sedia o Conselho Tutelar”. Ao fundo da foto do Google, a onipresente Pedra de Ladainha

Pedra de Ladainha [imagem de drone por Portugafilms, veja aqui]

Uma simulação via Google Maps de um trajeto da fuga a pé de Nara e Luzia da Aldeia Verde [Hãm Yixux] até a estrada MG-217

Uma simulação via Google Maps da carona de Nara e Luzia até Teófilo Otoni

Distância entre a Aldeia Verde [Hãm Yixux] e Nanuque. PS: a simulação do ônibus de Teófilo Otoni a Nanuque não foi possível por conta das restrições do isolamento social no momento de criação desse post, em 2020

Nara salva a filha de um estupro coletivo; ameaçada de morte, tem que fugir com Luzia da aldeia; as duas não conseguem refúgio com Dona Tonica, mas são acolhidas pelas negras da família Santos [a parte que mais me emociona: quando as mulheres se reúnem em casa, e compartilham as dores e o acolhimento]. A retribuição do agrado: num sonho, Luzia descobre onde Mbira está. Então, Bartira consegue reencontrar o neto e o salva do orfanato [tanto esse trecho do sonho da Maxakali, quanto o da velha, irei exibir mais à frente, já com a versão final das entidades].

Gosto muito desse estalo que tive, de criar um irmão para Miwa, que também foi adotado, e a dança da vida reuniu as duas mães em Mucuri, uma negra e a outra índia Maxakali.


NOVO TÍTULO [9ª VEZ]

Domingo, 18 de setembro de 2016, tarde. Termino de ler o romance “A gloriosa família — O tempo dos flamengos”, do mestre Pepetela [trechos aqui], e vou encontrar Sarah no apê do Edf. Silverstone. Lemos juntos o cap. 27, anoto pequenos acertos para fazer. Pôr do sol lá fora, e eu faço uma reflexão sobre o título do romance. Acho que “Muralha” não representa a totalidade do livro; dá-se a impressão de que é apenas um livro de futebol [o que não é mais], por levar o nome do protagonista que é um goleiro. Sarah apoia a mudança. A noite chega, e eu dou o 1º adeus a Muralha [o nome que originou essa jornada].

Depois de assistirmos ao bom filme “O Mestre dos Gênios” [“Genius”, 2016, de Michael Grandage], pizza, carinhos e eu volto ao apê 703-B. Dez da noite. Levo meia hora pensando em opções para o título. Bingo! São dois protagonistas, uma só pessoa. Um em dois. A nascente e a foz. Isso! Modifico o título do romance para “Miwa — A nascente e a foz”.

No dia seguinte, anuncio no Facebook o novo título do romance

PS: Na segunda 19/09/16, apê 703-B, pesquiso os livros lidos durante o processo de produção do romance [e também nos anos do processo], e separo os que considero mais importantes para inserir na Introdução. Revejo a página, adiciono as informações catalogadas, e a desloco para o final do livro, após o último capítulo, com um novo título: 0.

250 dias trabalhando no romance

250º DIA OROBORO

Terça, 20 de setembro de 2016. Ou 250º dia de trabalho em “oroboro baobá” [pela contagem errada da época, celebrei o marco em 07/10/16, com direito a post no Facebook, com a imagem acima]. De manhã, reunião da Flica 2016 na Rede Bahia. À tarde, revejo o cap. 27 e a página 0.

Não há mais pendências, só escrever os capítulos que faltam. Sei... Bate uma preguiça de escrever danada! Fico me divertindo a criar uma nova capa para o romance.

Pirei na fonte Chiller, perfeita para escrever Miwa e botar numa capa

CAPA [6ª VEZ]

Com a mudança do título do romance para “Miwa — A nascente e a foz”, perdeu o sentido [para mim] a capa com a fantástica ilustração “Oxumarê: o sonho da serpente”, do comparsa Max Fonseca. O foco não é mais Muralha, ou uma imagem em que o masculino está em evidência, altivo, forte, divino, e sim a dualidade de Miwa; mais ainda: a fluidez da nascente à foz.

Na preguiça da terça 20/09/16, o melhor do ócio é descobrir a fonte “Chiller”. PQP! Foda! Muito bom o efeito ao escrever Miwa. Crio a imagem acima, e brinco que, se o romance fosse oriental, a capa tava pronta!

A 6ª sugestão para a capa do romance: a fotografia de Nathália Miranda, tirada no Pantanal de Marimbus

Quarta, 21 de setembro de 2016, às 19h10, a fotógrafa Nathália Miranda faz um post no Facebook com uma linda foto sua, marcada como Pantanal de Marimbus [na Chapada Diamantina, Bahia], com a seguinte descrição: “o que está embaixo é como o que está no alto,/ e o que está no alto é como o que está embaixo./ e por essas coisas fazem-se os milagres de uma coisa só./ e como todas essas coisas são e provêm de um”

Uau! Pirei, total! Comento: “Esplêndida!” Baixo a foto e, na manhã do dia seguinte, já crio a nova capa do romance [o formato da foto já era perfeito para uma capa de livro], felizão com o design [com a fonte “Chiller”] que consegui para inserir o título [grande] e o meu nome.

O design aprazível que consegui para esse título longo e o meu nome. Não posto como ficou na foto de Nathália, porque não solicitei autorização

A foto de Nathália Miranda do Pantanal de Marimbus traz exatamente o que eu preciso para “Miwa — A nascente e a foz”: água, verde, os dois lados são iguais, reflexos. Salvo nos arquivos e a deixo guardada; quando for publicar o livro, entrarei em contato com a fotógrafa para os acertos [nunca aconteceu].

PS: Sarah Fernandes me apresenta uma fotaça de Djimon Hounsou por Fabrizio Ferri [fotógrafo já citado no post de 2013, por outra foto de Djimon, que me inspirou a criação do físico de Muralha], em que o ator está mergulhado e só a cabeça está de fora, com um reflexo que parece outra cabeça, para dentro das águas. Uau! Piro, faço um post no Facebook, e crio uma capa alternativa para “Miwa — A nascente e a foz” [divulgarei essa foto no post sobre a jornada em 2017]. Daí, faço outra capa, com a foto da Baule Kpwan Mask [que inspirou a criação de Mokamassoulé]. São três opções para a Record escolher [em todas, inseri o logo da editora, para vibrar pela vitória no Prêmio Sesc de Literatura 2017].

Epígrafe de Daniel Lima garimpada para o meu romance

EPÍGRAFE [6ª ESCOLHA]

Quarta, 21 de setembro de 2016, tarde. No apê 703-B, defino as epígrafes de “Miwa — A nascente e a foz”: além de Eckhart Tolle e Adélia Prado, retorno com a epígrafe de Lívia Natália [cortada em abr/16] e insiro uma nova, com o belíssimo poema sem título do poeta pernambucano Daniel Lima [1916-2012], presente no premiado livro “Poemas”, de 2011, página 150.

Não é o mar que amo,/ é o infinito que ele sugere,/ são as paixões que lembra/ é a força que suscita” são versos que gravei no meu coração, para sempre. Bravo! Não é a coisa em si, e sim a sugestão de infinito. Que sacada! Que pancada! Daniel Lima eterno!

PS: Em 2017, reutilizaria a epígrafe no meu “Quem se habilita a colorir o vazio?”.


Ainda na quarta 21/09/16, faço umas mudanças de estrutura e ordem de capítulos, e escrevo a última parte do cap. 28, a reaproveitar um parágrafo do 18 [“Antes da Seleção”]: em vez de ser Miwa [em 2015, Maria] que morre no assalto, é o fotógrafo que toma o tiro fatal [influência do conto “O banquete”, em que o algoz, nalgum momento, será a vítima]. Boa sacada: o trecho é só um jeito de informar que ele não é o pai de Mbira [para dar um susto no leitor, tipo “ué, se não é ele, quem é?”].


Allée des Baobabs por Beth Moon

ALLÉE DES BAOBABS

Domingo, 26 de junho de 2016. Às 08:48, a californiana Art People Gallery faz uma postagem no Facebook, “Ancient Trees by Beth Moon”, com quatro fotos de árvores ancestrais, da fotógrafa norte-americana. Quase dez minutos depois, zapeando o meu feed, a sincronia opera o encontro. WOW! Que trabalho foda! Que árvores! E que lugar é esse? Vrááá! A 1ª foto [imagem acima], de uma estrada com entes magníficos, me suga e eu não saio mais de dentro dela.


Baixo a foto [em dez/16, usaria como capa do meu perfil no Facebook], compartilho o post e busco saber mais da fotógrafa Beth Moon [um trabalho espetacular, quero muito comprar os seus dois livros “Ancient Trees | Portraits of Time” e “Ancient Skies, Ancient Trees”]. Descubro que fui sugado para Madagascar, rodeado pelos baobás mais lindos que já vi, “em movimento” numa estrada de terra, única no mundo, chamada de Allée des Baobabs, a Avenida dos Baobás.

Quando eu decidi [não tenho o registro da data precisa] que as entidades seriam da África, firmei que Miwa nasceria na Allée des Baobabs. Compreendi a mensagem de que era preciso inserir o baobá no romance. Daí, a conexão foi imediata: vai ser da espécie que só existe em Madagascar! Ou seja, além do baobá, trago para o romance esse local que, desde o 1º contato em jun/16, apresenta-se para mim como sagrado [até a publicação desse post, eu nunca visitei].

Allée des Baobabs por Francky Dovan

Allée des Baobabs [não achei o crédito]

Quinta, 22 de setembro de 2016. Eu, que já quis ter um livro chamado “Paisagem da insônia” sem sofrer desse mal, tenho uma insônia miserê hoje. Deve ser a expectativa do astral. A antena tá operando em alta! Desisto da cama, elaboro e publico um post no blog, edito o original de “Leituras 2016”, nado no Asbac, começo a ler o recém-lançado “O chão que em mim se move”, do amigo Carlos Barbosa, e vou trabalhar em “Miwa — A nascente e a foz” às nove e meia da manhã.

Allée des Baobabs por Frank Vassen

Allée des Baobabs por Frank Vassen

Allée des Baobabs por Frank Vassen

Preciso escrever o cap. 29, sobre o nascimento de Miwa [e do seu irmão]. Como não tenho know-how suficiente, tenho que pesquisar. Adoro! No apê 703-B, invisto três horas, via são Google, a buscar conhecimento sobre Madagascar, a Allée des Baobabs, a cidade de Morondava e a etnia Sakalava, entre outros assuntos malgaxes. Que riqueza!

Graças à maravilha tecnológica do Google Street View, posso passear nas ruas de Morondava, até chegar na Allée des Baobabs — aproveito como se estivesse lá. Para marcar esse presente, faço um post no Facebook com uma foto do entardecer [no final da manhã, também publico a foto das damas do povo Sakalava].

No comentário do post, divulgo o link do Google Street View para passear na Allée des Baobabs [vá também aqui]

Damas do povo Sakalava

Depois de concluir a 4ª temporada de “Lost”, buscar o exame do pulso machucado e trabalhar na resolução de um pepino da Flica 2016 [às vésperas do evento, uma autora internacional desistiu, e eu tive que buscar a substituta], o paraíso: começo a escrever o cap. 29 no apê 703-B, criando a mãe de Miwa, a jovem malgaxe Misara [o nome anterior de Mihasoa, uma “homenagem” à parceria com Sarah, fundindo os nossos nomes], o xodó “Não é a mais nova, nem a primogênita, sequer a do meio; está na posição intermediária, ímpar na contagem”, e o original do xodó “Ela é das águas, herança da mãe, marisqueira, e do pai, pescador, e dos seus antepassados litorâneos e insulares, desde os primórdios. Respeita a sensibilidade: a aura tem que vibrar antes do rosto, a ancestralidade antes do toque, a pertença antes do eu sou”.


Gosto demais desse trecho, onde insiro as informações que captei do oeste de Madagascar, faço um paralelo com o ABC do Gonçalo Fernandes Trancoso, e coloco a mãe de Miwa nem aí para relacionamentos. À noite, durmo tranquilo, sem insônia, satisfeito com o que o capítulo irá proporcionar ao romance.

A mãe de Miwa trabalha no hotel Baobab Café em Morondava, Madagascar [via Google Street View, veja aqui]

Do Baobab Café à Allée des Baobabs via Google Maps

O espetacular Parc National Tsingy de Bemaraha, localizado no oeste de Madagascar. Foto: Wikipédia

Essa fotaça da víbora verde de Gumprecht me hipnotizou, e eu só sosseguei criando a Makonga para o romance.

MAKONGA

A fotaça é de uma fêmea. Quem tirou? Bom, segundo essa publicação da WWF [na pg. 39, tem o crédito da foto da capa], foi René Ries. Porém, segundo a nota “Greater Mekong’s species spectacle” da BBC, foi P. Niyomwan. Não consegui solucionar a dúvida, mas prefiro seguir a indicação da WWF. Valeu demais, René Ries!

WWF informa que René Ries fez a fotaça da víbora verde

Sexta, 23 de setembro de 2016, manhã. Depois de fazer pequenos consertos em sete capítulos, rever a página 0 e começar um esqueleto para o 29 [melhor organizar para não me perder], pesquiso e crio a entidade Makonga, a mensageira, baseada na víbora verde de Gumprecht — que foi descrita como uma nova espécie em 2002, no artigoDescription of a new species of the genus Trimeresurus from Thailand...” [a víbora foi batizada em homenagem ao herpetologista e taxonomista alemão Andreas Gumprecht — uma pena que eu não consegui descobrir o nome nativo].

Artigo de 2002 que descreve a Trimeresurus gumprechti para a ciência

Trecho do artigo que informa sobre a escolha de “gumprechti” para batizar a víbora verde [e onde ela mais se encontra, no nordeste da Tailândia]

É linda demais essa víbora, gente! Foto: Wikipédia

A víbora-musa é asiática, o nome da entidade é uma “homenagem” ao grande rio Mekong, asiático, mas a minha Makonga é africana! Boto a mensageira onde eu quiser! [vantagens da ficção] Abro o mapa da África no Google, intuo um chamado vindo dos grandes lagos. Capto a mensagem e escolho o gigante Niassa, entre Moçambique, Malawi e Tanzânia. Passeio pelo lago, até escolher a Chizumulu, a menor das duas ilhas-enclaves malawianas em território moçambicano, como local de apreço da entidade, “para visitar os baobás sagrados” [Chizumulu tem muitos baobás, segundo a Wikipédia].

Ilha Chizumulu, no lago Niassa. Em primeiro plano, dá para ver dois baobás. Foto: Cale McMillen [aqui]

A localização da ilha Chizumulu na África via Google Maps

O bote da víbora-musa Trimeresurus gumprechti. Foto: Thor Hakonsen

Baobás da ilha Chizumulu, que Makonga gosta de visitar [fiz até um post no Facebook com essa foto da Around the World in 80 Clicks]

A mensageira é criada para comunicar à Bartira que vá encontrar Miwa no mangue de Mucuri. Assim como Marcelino, crio um bordão, brincando com a sonoridade da palavra “bacuri”, excelente para exclamar num final de frase [além da referência à encruzilhada-locação do romance], e o significado maravilhoso de que o bacuri é um fruto que se colhe, e não se retira do pé, tem que esperar cair. Gosto demais do sibilo, outro bordão de Makonga, a minha primogênita das entidades.

Escrevo o original do super-xodó “(...) ao vibrar a língua, transmite a mensagem com uma voz cujo som é o sopro de um mosquito a deslizar o sussurro à superfície de um lago”. Invento que Makonga resgata do orfanato a foto de Miwa no santuário. Daí, insiro a informação “com dois furos simétricos que lembram a picada de uma cobra” sobre o retrato, em capítulos de Muralha e Miwa, para ter coerência. E por falar na palavra “cobra”, revejo o seu uso em todo o romance, para não afetar a importância da víbora mensageira.


MAMBEZI

Confesso que estou confuso: não sei se, ao escrever os novos capítulos do romance em ago & set/16, crio as entidades sem batizá-las, e, a partir de 23/09/16, pesquiso e elaboro os nomes + uma arrematada no visual, ou se invento tudo em setembro. Aff... Pela lógica, deve ser a 1ª opção, só que dá preguiça de rever o que já escrevi nesse post. Enfim, segue o baba.

Na sexta 23/09/16, apê 703-B, pesquiso e crio a entidade Mambezi, a musicista. E eu a amo, por ser híbrida, com tronco de forma humana [com pele de réptil], pernas de tentáculos de raízes, cabelos de tranças de florzinhas, que maravilha! E boto a mágica da música no romance: Mambezi toca a transcendental mbira!

A musicista é criada para “entregar” à Miwa o seu filho Mbira. Assim como a Makonga, o seu nome é uma “homenagem” a um grande rio, só que africano: o Zambezi [em português, a grafia é Zambeze, mas prefiro utilizar a forma inglesa, com “i”, por achar mais bela], cuja foz é no Canal de Moçambique. Abro o Google Maps, navego pelo rio no contrafluxo, e encontro a magnífica Mosi-oa-Tunya [em lozi, significa “a fumaça que troveja”], as espetaculares cataratas do Zambezi, na fronteira entre o Zimbabwe e a Zâmbia [mais conhecidas como Victoria Falls]. Escolho a Mosi-oa-Tunya como moradia de Mambezi.

A exuberância da gigante Mosi-oa-Tunya [foto daqui]

Pôr do sol na Mosi-oa-Tunya [foto daqui]

Sinalizada em vermelho, a localização da Mosi-oa-Tunya na África via Google Maps [creditada como Cataratas de Vitória]. Em laranja, a parte norte da foz-delta do rio Zambezi, na vila do Chinde, em Moçambique

Muito feliz com a sacada de tentáculos de raízes como as pernas de Mambezi. Agora, raízes de que árvore? Pesquiso espécimes africanos, e sou fisgado pela Dalbergia melanoxylon, conhecida como Mpingo [tem uma porrada de outros nomes, como Nyamfunga, Kidamo, Mgembya, Mupako, Mwajinde e o inglês African Blackwood], por conta do preto intenso do seu interior [um paralelo com o tom da pele de Miwa/Muralha]. Que belo! Contudo, só dá para ver se derrubar a coitada da árvore, ameaçada de extinção... Putz, humanidade!

A madeira é cobiçadíssima como matéria-prima de instrumentos de sopro, como o clarinete e o oboé. Presto uma “homenagem” à árvore que faz música [tema do doc “Mpingo: The Tree That Makes Music”, de 1992]. Pesco na internet: “Muitos músicos sentem que os instrumentos feitos de mpingo criam tons atraentes e suaves que não podem ser alcançados com instrumentos feitos de materiais alternativos” [veja aqui] e “Mpingo é uma das madeiras mais caras do mundo e é a preferida no comércio de instrumentos musicais devido à sua alta densidade, textura fina e durabilidade excepcional” [veja aqui].

A árvore Mpingo [Dalbergia melanoxylon] por Arthur Chapman [foto daqui]

Toras de árvores Mpingo mortas

Além da Mpingo, insiro outra árvore africana na composição de Mambezi: a palmeira Makalani [Hyphaene petersiana]. Escolho cobrir o rosto da entidade com palhas secas dessa palmeira [também conhecida por Omulunga, Epokola e Mbare], para deixá-la mais misteriosa.

A árvore Makalani [Hyphaene petersiana]. Foto: Marco Schmidt

Mambezi parece nome de serpente. Influenciado pela criação da Makonga, resolvo inserir algo de cobra na musicista. Pesquiso: qual é a mais letal do mundo? O São Google me responde: Oxyuranus microlepidotus, a Taipan do interior, chamada pelos aborígenes de Dandarabilla. Vixe, mas a bicha é endêmica do deserto australiano! E daí? De novo: boto a musicista onde quiser! Piro numa foto da Dandarabilla, em que o marrom-escuro do inverno me parece um roxo-escuro, excelente para a pele de Mambezi [faço até um post no Facebook].

A bela e extremamente letal Dandarabilla [Oxyuranus microlepidotus], conhecida como Taipan do interior, clicada no inverno por Eric Vanderduys [foto daqui]

Cabô Austrália na entidade? Nada! Aproveito o embalo e resolvo que o cabelo de Mambezi é trançado por florzinhas da Acacia nigricans, amarelas e cândidas, endêmica da costa sudoeste da grande ilha.

A planta Acacia nigricans. Foto: Wikipédia – Melburnian

E tem mais: a árvore Pterocarpus angolensis, nativa da África Austral, é conhecida por muitos nomes, como Mukwa, Umvangazi, Kiaat, Mokwa, Umbila [uso português] e... Mubvamaropa, o nome que escolho usar no romance. A árvore que parece sangrar, quando sofre um corte, é usada para criar a gwariva, a caixa de madeira do instrumento mbira.

A árvore Mubvamaropa [Pterocarpus angolensis]. Foto: Martin Heigan

Mubvamaropa, a árvore que parece sangrar [foto daqui e daqui]

Uma gwariva feita de madeira da Mubvamaropa, a caminho de se tornar uma mbira. Foto: The Mbira Centre

Tudo certo na Bahia! Toda trabalhada [faço até post no Facebook, compilando as referências vegetais & outras — desconfio que tenha postado fotos erradas aí, haha], Mambezi estreia no romance no cap. 24, que tenho o prazer de concluir [escrevo o original do xodó “Ela sente vibrar o útero, os seios, o clitóris. Mergulha nas ondas de si e na transcendência do instrumento chamado mbira”], um dos meus prediletos [amo todo esse trecho do sonho de Miwa e o contato com a musicista que toca mbira].

PS: Aproveito a tarde da sexta 23/09/16, e continuo a trabalhar no esqueleto do cap. 29 [do ritual em Madagascar].


MENSAWAGGO

No final da sexta 23/09/16, posto duas fotos no meu Facebook [aqui e aqui]: de um belo modelo preto BMW X6 M, e da Supernova Remnant W49B, captada pela NASA Solar System Exploration. O lindo carrão [“um crossover de utilitário esportivo com coupé”] é o modelo em que me baseio para criar o veículo da entidade transportadora [totalmente na cor preta, impecável]. E a supernova ilustra o efeito que eu quero com as vestes da entidade: “poeira cósmica multicolorida”.

BMW X6M Black, o modelo que inspirou o veículo de Mensawaggo

Domingo, 25 de setembro de 2016, manhã. Depois de transportar [rá!] a minha mãe à sede da sua religião no bairro da Federação, volto ao apê 703-B para trabalhar em “Miwa — A nascente e a foz”. Invisto mais de três horas para pesquisar e criar a entidade Mensawaggo, a transportadora, e trabalhar no seu trecho do romance, cap. 21.

A transportadora é criada para resgatar Miwa e movê-la para o reencontro com Dona Tonica, num tipo de movimento além do espaço-tempo [quando a jovem desembarca, “quilômetros” depois, está com uma barriga de grávida, prestes a parir]. A entidade é interdimensional, e transita entre os espaços da matéria numa outra realidade. Ahhh, meu xodó! Ponho a lindeza vestida de universo.

A Supernova Remnant W49B, captada pela NASA Solar System Exploration, figura o que é a poeira cósmica multicolorida que veste Mensawaggo

De que lugar da África ela vem? Dessa vez, tenho uma premissa: quero fazer uma “homenagem” a Nelson Mandela, ou seja, a entidade vem da África do Sul. Via Google Maps, passeio pelo território, quero que ela seja do litoral, tem que ter água no processo. Fluo até a sincronia anunciar: que montanha é essa? Aff... lindimais! Conhecida como Table Mountain [Montanha da Mesa], é o presente das deusas para o deleite da Cidade do Cabo.

A Wikipédia me informa que os nativos a chamam de Hoerikwaggo. E que, lá de cima da montanha, um astrônomo francês observou e batizou uma constelação de Mensa, em homenagem à montanha [“a única das catalogadas a não fazer referência a um instrumento científico ou artístico”]. Hum... constelação, montanha... Mensa... Hoerikwaggo... Bingo! Batizo a transportadora de Mensawaggo, uma “homenagem” ao universo e à sua antena de pedra na ponta da África.

A Table Mountain e a Cidade do Cabo, na África do Sul [foto daqui]

Ao criar esse post, pesquiso novamente sobre a montanha, e descubro que estão a usar o nome Huriǂoaxa, a correta denominação nativa da gloriosa, pelo povo Khoekhoe [em 2016, usei a terminologia anterior, Khoikhoi]. Leio uma entrevista com o linguista Pule Welch, em que ele diz “We replace Dutch spellings of Khoekhoe place names, so ‘Hoerikwaggo’ became Huriǂoaxa”. Ou seja, Hoerikwaggo era o jeito holandês de dizer Huriǂoaxa [cujo significado a Wikipédia, já atualizada para Huriǂoaxa, informa que é “sea-emerging” ou “ocean-emerging”; encontro um comentário num post no Facebook que diz que é “where the sea rises”; interpreto: “a que se emerge do oceano” ou “onde o mar se ascende”].

Sorte que eu não publicara “oroboro baobá” ainda, e pude mudar para Huriǂoaxa no romance. Porém, mantenho a entidade como Mensawaggo, e não Mensaoaxa [ou Mensahuri], por achar mais sonoro e bonito.

A gigante Huriǂoaxa,“a que se emerge do oceano”, conhecida como Table Mountain [daqui]

Sinalizada em vermelho, a localização da montanha Huriǂoaxa [Table Mountain] na ponta da África do Sul via Google Maps

A contelação de Mensa via Wikipédia

Seja bem-vinda, Mensawaggo, a minha filha predileta! Ornada por constelações, moradora da gigante Huriǂoaxa, como bem diz o xodó, que a transportadora “costuma observar, a mais de mil metros acima do Oceano Atlântico, a dinâmica da cidade, sem ser vista pelos seres humanos, que visitam o lugar e não a incomodam, e também os movimentos das estrelas, a se comunicar com outras entidades, interplanetárias”.

Uma versão da entidade Mensawaggo, com foto garimpada na internet [não consegui o crédito], modificada por mim, na tarde do meu aniversário em 2016, numa junção com a foto da NASA para a Supernova Remnant W49B, e o desenho da constelação de Mensa

A aparição de Mensawaggo no cap. 21 é um trecho que gosto muito, com o original do xodó “Um relógio [...] Para uns, o aparelho adverte a incapacidade humana de escapar da contagem progressiva à morte. Para outros, afirma o pertencimento do ser manifesto na matéria. E, para o instante em que Miwa se encontra, torna-se apenas um objeto decorativo” e o bordão “é uma ficção” [nessa versão de 2016, na voz do narrador], uma das marcas “filosóficas” dessa entidade maravilhosa!


Amplio a “homenagem” a Nelson Mandela na aparição de Mensawaggo, garimpando uma fala dele sobre a Huriǂoaxa e a inserindo no romance como uma nota [na manhã desse domingo 25/09/16, faço um post no Facebook com uma foto da montanha e a fala de Madiba].

Livro “Table Mountain to Cape Point” (Struik Publishers, 2007), de Carrie Hampton e Andrew McIlleron [disponível na Amazon aqui], onde garimpei as palavras de Nelson Mandela sobre a Huriǂoaxa [nessa época, estava disponível no Google Books]

“To us on Robben Island, Table Mountain was a beacon of hope” — Huriǂoaxa vista de uma das celas da prisão de Robben Island [não achei o crédito da foto]

Huriǂoaxa vista da Robben Island [até a publicação desse post, eu nunca visitei a África] via Google Street View [veja aqui]

MOKAMASSOULÉ

Segunda, 26 de setembro de 2016, manhã. No apê 703-B, invisto quase duas horas para pesquisar e criar a entidade Mokamassoulé, a dançarina. A partir da máscara The Baule Kpwan Mask, já postada por aqui, trago a ambiguidade macho-fêmea para o ser fantástico & híbrido [ao menos uma das entidades teria que expressar essa identidade], que gira gira gira e mostra as suas genitálias [o falo “grosso, duro, que aponta à profundidade dos bosques sagrados” e a vagina “a florescer, úmida”, pois a entidade traz “nos seus passos e vibração, a aldeia do coração e da floresta”], uma reinterpretação de “exprime a união de opostos, que se atraem e proporcionam a manutenção do universo e da vida”, sobre Oxumaré.

Resolvo me deslocar da África Austral, visando outras paisagens do continente-mãe. Em “homenagem” à língua que Alpha Blondy canta “Miwa” [e ao próprio mestre do reggae], e à origem da máscara [uma riqueza da dança sagrada Goli, do povo Baoulé] que faz nascer a entidade, decido que ela se situa na atlântica Costa do Marfim, na África Ocidental. Porém, tem que ser no interior, no centro.

Sinalizada em vermelho, a localização da cidade de Sakassou, no centro da Costa do Marfim via Google Maps

Abro o Google Maps e intuo que a dançarina vem da região de Sakassou, a capital tradicional do povo Baoulé. Mais ainda: vem de uma mata, próxima ao lago Kossou, fruto de uma barragem no rio Bandama. Batizo a dançarina de Mokamassoulé, uma “homenagem” à cidade, ao rio, ao lago e ao povo Baoulé.

A cidade de Sakassou na foto do marfinense Desire Kouadio

Rio Bandama na Costa do Marfim [daqui]

Lago Kossou na Costa do Marfim via Wikipédia

Mulheres com trajes típicos do povo Baoulé, da Costa do Marfim, via Wikipédia

Sinalizada em vermelho, a localização da mata de Mokamassoulé na Costa do Marfim via Google Maps

A mata de Mokamassoulé na Costa do Marfim via Google Maps [aqui]

Baseio-me num dançarino Goli para preencher de palhas, couro e fios de búzios, o tronco e os braços da entidade, além dos chocalhos de metal das canelas aos tornozelos, e a máscara Kpwan vermelha cobrindo o rosto. Agora, nas pernas, invento um emaranhado de saias longas, coloridas e leves, para bailar também com o ritmo e revelar as partes híbridas.

Um dançarino Goli do povo Baulé, Costa do Marfim. Foto: Pam Perkins [daqui]

O marfinense Kouadio Benoit Kasse postou essa foto no Facebook com a legenda: “Le baoulé et la paquinou, c'est un moment important dans la vie des hommes épris de paix, d'amour et de bonheur. C'est la danse goli, une danse de réjouissance”.

Um exemplo de saia colorida [coleção Abre Asas da Farm], mas a da entidade as fitas são mais grossas, embora a leveza seja a mesma [o comprimento é esse]

A dançarina é criada para “entregar” à Bartira a sua filha adotiva Miwa, no mangue de Mucuri. Embora breve, adoro esse ritual, um balé “Ao som do mantra de tambores/ Na batida do coração/ Brotado de dentro”.

Mangue de Mucuri, Bahia. Foto: Kelwy [daqui]

Na real, amo todo esse trecho de Bartira no mangue, principalmente o xodó “Ela acorda com o uçá futucando o seu pé. Demora em se levantar da lama; o corpo requer precisão para acomodar o espírito. Entre os caminhos possíveis, intui a direção da cidade e recomeça a andar” e o final da 2ª parte do cap. 19, em que Bartira compreende o motivo de ter ficado em Mucuri e, sem dúvida, leva Miwa para casa, pois vai criar como sua.

O belo caranguejo-uçá [Ucides cordatus cordatus], à beira do mar. Foto: Prefeitura de Mucuri [daqui]

A beleza transcendental de um manguezal com espécimes de Mangue-vermelho [Rhizophora mangle]. Foto: Max Fonseca [daqui]


MOPMADOGARA

Ainda na segunda 26/09/16, só que pela tarde, apê 703-B, pesquiso e crio a entidade Mopmadogara, a nobre. A última das fantásticas, que é a primeira que aparece no romance. E tem uma influência do Rádio África e do aprendizado na Educadora FM aí, pois foi nessa época que eu pude conhecer o som do Mali, e pirar totalmente nos músicos desse país desértico. Muito blues, melodias belíssimas, vozes singulares, guitarras e violões fantásticos, enfim, salve Habib Koité e Salif Keita, entre muitos outros!

Com a Costa do Marfim na fronteira sul, decido: é aqui que a nobre habita, o Mali! Por esses dias, enquanto pesquisava, me informei e até publiquei um post no meu Facebook sobre o povo Dogon, tradicionais habitantes das Falésias de Bandiagara, ao leste do rio Níger, no Mali; cogitei inseri-los no romance, separei uns textos, mas, por preguiça, apenas os cito como vizinhos da Mopmadogara [na versão final de “oroboro baobá”, retiro a citação, porque os Dogon “estão deixando as aldeias localizadas nas escarpas íngremes”, por conta de “fenômenos socioeconômicos e degradação do meio ambiente”, segundo a UNESCO (leia aqui) — pior foi a informação da ONU (leia aqui) de que o terrorismo islâmico atacou os Dogon, com assassinatos e muita destruição].

Sinalizada em vermelho, a localização das Falésias de Bandiagara na África via Google Maps

O espetáculo das Falésias de Bandiagara [Falaises de Bandiagara ou Cliff of Bandiagara — não achei a designação Dogon para a falésia] no Mali. Foto: Jialiang Gao [daqui]

O visual de cima das Falésias de Bandiagara. Foto: Timm Guenther [daqui]

As tradicionais habitações do povo Dogon nas Falésias de Bandiagara, no Mali. Foto: Flora Pereira da Silva [daqui]

Embora o visual da nobre seja um compilado de vestes, corpo e adereços diversos, e que talvez nenhum deles faça parte da cultura malinês, insisto em habitá-la em Bandiagara, num castelo de pedra dentro da falésia. Iria batizá-la de Madogara [em “homenagem” à falésia] mas prefiro inserir o “mop” para dar uma sonoridade muito massa [acredito que esse “mop” veio do rolé via Google Maps, ao passar pela cidade de Mopti, à beira dos rios Níger e Bani, menos de 80km de Bandiagara].

A rota da cidade de Bandiagara para as Falésias de Bandiagara via Google Maps [à esquerda, a cidade de Mopti]

Amo criar para a nobre a sua coroa de abelhas-africanas vivas, a adornar o vasto black power. A sua hibridez me encanta, com os pés de pantera negra e esferas translúcidas como olhos. Gosto do enigma de não ter boca e falar, com uma voz “cujo som é tão frio como a noite no deserto”. A altiva e elegante Mopmadogara me encanta!

A nobre é criada para convencer Bartira a ficar em Mucuri [onde iria mudar a sua vida e adotar Miwa]. Como já falei, é a 1ª entidade que o leitor tem contato. Visita Bartira em sonhos, sempre com a mesma mensagem, o xodó que é “uma mistura de sugestão, pedido e ordem”. Na 1ª parte do cap. 19, introduzo Mopmadogara no romance.


Eu adoro o sonho da velha numa Trancoso de outra dimensão, com índios de várias tribos reunidos numa emanação embalada pela mbira de Mambezi, cujo protagonismo é da nobre Mopmadogara, que sugere/pede/ordena que o filho de Miwa seja devolvido [amo como todos os seus componentes reagem, a zumbir, rosnar, tilintar, espetar, refletir e arranhar]. Escrevo o original do xodó “Hedda ouve um canto, mântrico, que debulha o seu espírito da nuca, entoado pelos índios, em uníssono” [2ª parte do cap. 28].


PS: Na terça 27/09/16, apê 703-B, invisto mais de três horas para rever todos os trechos das entidades no romance, e retomar a escrita do esqueleto do cap. 29.

Oxumaré inspirou a criação de Mutujikaka [não consegui encontrar o crédito da ilustração, garimpada daqui]

MUTUJIKAKA

Quinta, 29 de setembro de 2016, entardecer no apê 703-B. Depois de rever os trechos da Mopmadogara no cap. 19, e trabalhar no esqueleto do cap. 29, crio o nome para a personagem que é a divindade: Mutujikaka, a guardiã.

Considero o fonema /K/ o mais poderoso da fala humana. Acredito que muito da popularidade da festa literária que realizamos em Cachoeira vem da força da sua marca: Flica, o fli terminando com o fonema /K/. Nessa viagem, decido que o nome da divindade vai terminar com dois ka-ka, dando um balanço como se fosse um repique.

É o ritmo que me faz escolher o “mutu” para abrir, o “ji” como ponte, e o “kaka” para encerrar: “mu-tu” traz o interior, o chão, dois toques no surdo; “ji” é a boca a preparar a abertura, o canal que transporta o ar à saída, um toque no aro do surdo; “ka-ka” é a expiração, a afirmação que se prolonga na atmosfera, dois toques no repique.

A guardiã é criada para garantir que as mudanças ocorram, a observar Burianã [vai encontrar o goleiro que não toma gol], Mbamba [vai superar a desgraça e prosperar no Brasil] e Bartira [vai refazer a vida em Mucuri e se tornar mãe de Miwa]. Inicialmente escrita como uma manifestação de Oxumaré, na sexta 30/09/16, manhã no apê 703-B, pesquiso e crio novos detalhes para firmar a nova divindade, revendo os trechos de Mutujikaka nos capítulos 2, 9 e 19 [muito bom que Mudinho surja vestido com a mesma roupa que a divindade, a sugerir que seja a mesma personagem; o que confunde o leitor quando aparece no passado, para Mbamba].


Aproveito para afirmar o meu amô pelo trecho do 1º encontro da mineira Bartira com o mar. Acho a maior lindeza! Gostei demais de ter escrito as sensações de conhecer e se reconhecer dentro do oceano [gosto também das reações de Dona Tonica e Ranolfo]; de mirar o sol, de olhos fechados, e a luz, que deveria ser vermelha, se esverdeia; de Bartira olhar para o horizonte e pensar “Como será a vida lá do outro lado?”, ou seja, na África, e avistar Mutujikaka, que se apresenta, prenunciando a mudança, emoldurada por “um arco-íris bem definido”. Os parágrafos são xodós, por inteiro. E o trecho estreia assim em 2016:


Na tarde da sexta 30/09/16, também no apê 703-B, recomeço a escrever o cap. 29, em que Misara fica feliz pela turista escolher o passeio da Allée des Baobabs, se impressiona com o veículo alugado [nessa época, a turista é Mensawaggo], e elas chegam na avenida.


Ainda no clima das Olimpíadas 2016, resolvo incluir o judô [esporte olímpico predileto] no romance, fazendo uma referência à malgaxe Asaramanitra Ratiarison, única judoca de Madagascar a participar dos jogos, e que portou a bandeira do seu país no encerramento. Na foto, ela está ao lado do nadador malgaxe Anthonny Ralefy, na cerimônia.

Entrada da Allée des Baobabs via Google Street View [visite aqui]

Aproveito o embalo Mutujikaka, e crio todo o trecho com as características da guardiã: aparece inserida nas águas, emoldurada pelo arco-íris, olhos com pupilas ovais de preto-intenso mergulhadas em vermelho-sangue, veste apenas um saião verde bordado com símbolos desconhecidos da humanidade, não mostra os pés, nem abre a boca, e a pele emana vibrações, traçada de linhas semelhantes a cursos de rios. E escrevo o original do xodó “Mihasoa pressente a presença da divindade Mutujikaka, a guardiã, que habita o espaço entre as palavras, a distorcer o tempo e moldar as dimensões, resguardando a integridade das linhas do destino equacionadas pelo mistério”.


A lagoa da Allée des Baobabs fica atrás do centro de informações, nessa imagem do Google Street View

Outro ângulo da lagoa da Allée des Baobabs via Google Street View

Olhos vermelhos de víbora exemplificam os olhos de Mutujikaka. Na foto de Akira Hsu, um exemplar da Trimeresurus stejnegeri [Chinese green tree viper ou Stejneger’s Pit Viper], prima chinesa da víbora verde que inspirou Makonga

A majestade do baobá Renala [Adansonia grandidieri], endêmica de Madagascar. Foto: Bernard Gagnon [daqui]

O BAOBÁ RENALA

Na manhã do sábado 01/10/16, apê 703-B, começo a ler “Todos os contos”, de Clarice Lispector. Aproveito o embalo literário e pesquiso sobre o baobá Renala [faço um post no Facebook para marcar a árvore sagrada no romance]. Fuço um monte de site via São Google, inclusive de Madagascar [viva o Google Translate!], e garimpo as informações sobre o tronco, as flores, os frutos, a utilização pelos malgaxes, os cultos e as lendas. O baobá passa a ser importante para o romance.

Abastecido, volto a trabalhar no cap. 29 e escrevo o trecho dos dados sobre  a “mãe da floresta”, e o trecho sobre “a árvore de cabeça para baixo”, com os originais dos xodós da Renala como “o totem que parece fecundar os céus, a coluna que estabelece o pilar da conexão, o elo entre o imanente e o transcendente, a ponte entre as dimensões, o cordão umbilical entre os mundos possíveis”, e do seu arremesso pela divindade e o reimplante de cabeça para baixo para interromper o movimento [“há quem acredite que o que aparenta ser um castigo é, na verdade, um ensinamento; o não-mover, neste caso, é sabedoria. A dádiva de ser espectador, receptáculo e antena”].


Aproveito e faço um paralelo da lenda do baobá com Misara: ela é “arremessada” por Mensawaggo para a outra dimensão, onde acontecerá o ritual com Mutujikaka. Ao todo, invisto oito horas de trabalho para a Renala [Adansonia grandidieri, encontrada apenas em Madagascar], nesse sabadão do baobá, primeiro de outubro!


O RITUAL EM MADAGASCAR

Em três dias [02 a 04/10/16], invisto mais de 18 horas de trabalho para concluir o cap. 29, o xodó “ritual em Madagascar” [nessa leva, crio o ritual, a volta à matéria da mãe de Miwa e a entrega dela no mangue de Mucuri], um dos trechos mais longos de “oroboro baobá” [assim como “o baba na aldeia” e “a saga dos ancestrais de Bartira”], que me orgulho muito de ter feito.

É um trecho controverso, que expõe o ser humano como uma vítima do divino [os gregos há tempos registraram essa violência], e traz a essência da reflexão proposta pelo romance: que somos todos usados como fantoches pelas “divindades” [livre-arbítrio é uma farsa anestesiante], sem nenhum direito a acessar a verdade [inventando as nossas “verdades” como muletas para os buracos e abismos interiores], expostos às mais diversas injustiças e violências, forçados a seguir como zumbis-formigas, drogados por um ego que ilude e mantém a Matrix.


Na terça 04/10/16, escrevo o original do super-xodó da reflexão de Mensawaggo, que resume a proposta: “perante os desígnios da verdade inacessível, não há nada manifesto, material e incorpóreo, que não seja uma marionete; até a própria divindade Mutujikaka, a guardiã, membro do panteão, tem que obedecer às fórmulas do que não se identifica, traduz, nomeia. Mensawaggo reflete: a fecundação, gestação, o parto e extravio dos recém-nascidos, à revelia dos desejos e opiniões da jovem malgaxe Mihasoa, enfeitiçada, violada, apartada dos filhos e destituída das memórias do processo — considerado inaceitável e passível de punição, do ponto de vista dos valores morais e das leis dos seres humanos —, têm uma função, irremediável, incompreensível e desgraçadamente necessária”.

PS: Nesses três dias [02 a 04/10/16], também pesquiso e troco palavras repetidas em diversos capítulos, faço pequenos acréscimos em alguns outros, planto a informação de que Nara adotou e criou o irmão de Miwa, e trabalho no esqueleto do último capítulo.


MKINI MAXAKALI

Quarta, 05 de outubro de 2016. Acordo pilhado e, antes de nadar no Asbac, revejo trechos de dois capítulos às seis da manhã. Infelizmente o meu livro “O grito do mar na noite” apanha em mais um prêmio. Estou calejado. De volta ao apê 703-B, só tenho um tempinho para trabalhar no romance antes de ir à Rede Bahia, para a última reunião em Salvador da Flica 2016. Insiro informações da roupa de Mudinho nos capítulos 2, 4 e 8.


Com fome, gravo uma entrevista para o programa Aprovado, da TV Bahia [veja aqui], falando como curador da Flica 2016. Só consigo almoçar às duas da tarde, no apê 703-B. Depois de mais uma rodada para trocar palavras repetidas, começo a escrever o cap. 30 [na época, o 31, o último capítulo — só modifico em novembro], na função de elaborar o irmão de Miwa: batizo de Mkini o negro criado como índio, uma “homenagem” ao nome-xodó Maxakali.

Aproveito descrições de Mudinho para reciclar como as de Mkini, no intento da “pista falsa” ao leitor [será que o irmão de Miwa é o goleiro Muralha?]. Escrevo as reações diante da tragédia na aldeia [“Silêncio. Escombros de incêndios. Entulhos. E a energia carregada, sombras resultantes do crime”], o gente-ruim que engana o jovem, e o arrependimento de Mkini por não ter ficado e lutado pela mãe e irmã.


Ainda na tarde da quinta 05/10/16, escrevo o trecho em que Nara conta à Bartira e Benivalda [e à sua filha Luzia] a verdadeira história do seu filho adotivo Mkini [nessa época, a índia encontrou o cesto com o bebê no mangue em Mucuri, e não na nascente do rio], ou seja, a sincronia une as duas mães. Além disso, finalizo o trecho com Nara conseguindo falar com a cacique, que informa o desaparecimento de Mkini.


Quinta, 06 de outubro de 2016, manhã. Depois de rever o cap. 29, volto a trabalhar no cap. 30, a escrever a fúria vingativa de Mkini [a caminho de Ladainha para matar os bandidos], o seu rapto por Mensawaggo [escolho a cidade de Mato Verde pelo nome, “zapeando” no Google Maps], e o original do xodó “Mkini Maxakali não sente dor nem incute machucados na alma. Mesmo a vivenciar uma experiência com o sobrenatural, permanece sem saber a verdade sobre a mãe e a irmã — o plano obscuro da vida tripudia dos anseios do indivíduo” [e a ironia do uso do verbo “Resignara-se”, referindo à Nara + a necessidade do filho aceitar de que não irá mais vê-la]. Reciclo a 1ª parte do 23 [“Antes da Seleção”] nesse trecho, a melhorar o texto sobre o racismo e a necessidade do jovem manter-se em movimento.


Pórtico de entrada da cidade de Mato Verde, em Minas Gerais [até a publicação desse post, eu nunca visitei], via Google Street View [aqui]

Escrevo sobre como a vida seguiu para Nara e Luzia, Bartira e Benivalda, todas sem acesso ao Amadô ou alguma foto do goleiro que não toma gol.


Insiro Mkini na cidade baiana de Potiraguá, preocupado com o pouco dinheiro que tem, desempregado. Escrevo o sonho da final da Copa do Mundo, o jovem celebrado como Muralha, e a Makonga a indicar Porto Seguro. Termino o trabalho dessa quinta 06/10/16 no cap. 30 com Mkini sendo aclamado como Muralha sem entender nada.


De Potiraguá a Porto Seguro via Google Maps

Na véspera do meu aniversário em 2016, tiro essa selfie e a batizo de “Escrever é cansativo — mas eu amo”, registrando o meu cansaço mental por tanta criação nessa levada ininterrupta para concluir o romance

ROMANCE NO NIVER [2ª VEZ]

Na sexta, 07 de outubro de 2016, estreio nos 36 anos. Igualzinho ao niver em 2014, trabalho pela Flica e no romance “oroboro baobá”. Só que, desta vez, totalmente dedicado a escrever, do zero, uma parte do livro: o encontro de Dom Brito com Mkini na rodoviária de Porto Seguro [em que o negro Maxakali é sequestrado pelo chefe do cartel, que irá forçá-lo a relembrar ou a ser Muralha no Baêa].

Depois de nadar no Asbac, de trabalhar pela Flica, e de fazer um post no Facebook e Instagram [excluí esse perfil no final de 2016] celebrando os 250 dias de trabalho no romance [na época, a contagem estava errada, como já citei], retomo o cap. 30 no apê 703-B, na função de encerrá-lo [havia desejado concluir o romance nesse niver, mas não consegui, frustrando-me; por apenas 2 dias, putz!].

Almoço delícia no restaurante Oliva do Salvador Shopping, presente da minha mãe, com a companhia dela e de Sarah, que me dá um belo presente também: “A Moon Shaped Pool”, o ‘novo’ álbum do Radiohead [forma a minha tríade sagrada com Bob Marley & The Wailers e Pink Floyd]. De volta ao apê 703-B, edito uma foto como representação de Mensawaggo [já postada e citada mais acima] e finalizo o cap. 30.


Terminal Rodoviário de Porto Seguro via Google Street View [aqui]

Para marcar o meu niver no blog, escolho fazer um post em “homenagem” à entidade predileta: Mensawaggo, a transportadora [filosófica!]. Reúno as observações sobre o que é ficção [e falo sobre a entidade]:

“A justiça é uma ficção.
A recompensa, também.

O livre-arbítrio é uma ficção.
O carma, também.

A dor é uma ficção.
O sofrimento, também.

O tempo é uma ficção.
O espaço, também.”

PS: Também faço um post no Facebook com esse mesmo conteúdo.

Via inbox do Facebook, o jornalista Filipe Sousa faz mais uma contribuição ao Dom Brito do romance

31, ENFIM

Sábado, 08 de outubro de 2016, hora do almoço. No apê 703-B, tiro dúvidas com o colega português Filipe Sousa sobre falas de Dom Brito no final do cap. 30. Daí, à tarde, trabalho no cap. 31, criando o trecho em que Mensawaggo desembarca Miwa, figurada como Mudinho/Muralha, à entrada do Parque Monte Pascoal, para ela encontrar Burianã no rio Caraíva [o momento de conexão das duas histórias principais], a escrever os originais dos xodós:

Miwa desembarca e fica de pé, novamente, muito tempo depois da última vez, segundo a contagem da gente que acredita tanto no criacionismo — o que pode ser considerado um milagre, a partir desses critérios — quanto no evolucionismo — o que seria classificado como ‘não comprovado’ e preconcebido como farsa, charlatanismo. Entretanto, a fuga pela BR-101, em Teixeira de Freitas, após o parto de Mbira, é hoje. E o que a pessoa fará, também é hoje. Pois tudo o que a forma é hoje.”

“A pessoa está nua. É uma mulher com a forma musculosa tradicionalmente associada ao masculino. É um homem sem pelos, nem cabelos, pênis e testículos. É uma jovem que não fala palavra alguma; inexiste no corpo a foz das memórias. É um jovem cuja delicadeza não se expressa, represado numa estação longínqua, sem tratamento, nem fissuras, que não permite o toque.”


Entrada do Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal via Google Street View [até a publicação desse post, eu nunca visitei], em Porto Seguro, Bahia [aqui]

Ainda na tarde do sábado 08/10/16, escrevo o trecho em que Mensawaggo desembarca Muralha em Mucuri, e se despede do romance voltando para África [crio o original do xodó “Miwa se encaminha ao mangue de Mucuri, quer alcançar a foz. Ao notar a presença de duas marisqueiras, vindas de encontro, concentra-se nos detalhes dos rostos, os traços expressivos, as roupas, os cortes de cabelo, a possibilidade de supô-las como conhecidas, vizinhas, amigas; os trejeitos, as índoles, se há empatia ou não, os preconceitos que baseiam a vontade de se aproximar ou repelir”].


À noite, no Edf. Silverstone, depois de lermos juntos os trechos do cap. 31, converso com Sarah sobre o final do romance e decido o que fazer. PS: mais cedo, fiz um post no Facebook sobre a Passarela Ecológica do Gigica e outro post sobre a planta “polvo do deserto” [Welwitschia mirabilis].

À direita, fica a entrada da Passarela Ecológica do Gigica, em Mucuri, Bahia [até a publicação desse post, eu nunca visitei], uma ponte de madeira de 300 metros, construída sobre um extenso manguezal [vídeo aqui]. Em 2016, escrevi o nome errado no romance, chamando-a de “passagem” em vez de “passarela” Foto: Google Street View [daqui]

Domingo, 09 de outubro de 2016, manhã. No apê 703-B, finalmente concluo o embalo desde abril, e termino de escrever o último capítulo do romance. Em quatro horas de trabalho, crio o trecho com Bartira [ela buscou o sobrenatural para ajudar a encontrar Miwa] e o trecho da transformação de Muralha em Miwa + o reencontro da mãe com a filha. O final ficou do jeito que eu queria:

Miwa se agacha. Mbira sorri, de um jeito amável, a inspirar tranquilidade, em silêncio; parece saber quem é a mulher que oferece o colo. Aceita. Ao ser tocado, pela primeira vez por Miwa, Mbira se transforma numa menina. E fala, com um timbre sideral: ‘Mãe’.”

E ainda escrevo o original do xodó “É hoje: ela retorna às suas potencialidades e belezas; a força de um coração disposto a amar, a permissão da intimidade de ser amada, a gana de realizar os seus sonhos e desejos, por instinto ou razão, a acumular erros e acertos, a mover-se, distraída, nas invariáveis de alguma equação do divino”.


Pela tarde, revejo o cap. 31 e o arquivo de contabilidade. Dez para as três da tarde do domingo 09/10/16, considero encerrada a produção literária do romance. Monto o arquivo e o imprimo. Compartilho um post no Instagram e no Facebook, a celebrar: “Hoje, terminei a produção literária do meu primeiro romance, ‘Miwa — A nascente e a foz’. Foram 925 horas e 30 minutos, 210 páginas de Word, 71.247 palavras. A partir de amanhã, segue para a revisão. Viva!”.

Com o original impresso de “Miwa — A nascente e a foz”. Foto: Sarah Fernandes

Vou para o Edf. Silverstone e deixo o original do romance com o escritor Carlos Barbosa, que fará uma leitura crítica, por amizade. Daí, sigo com Sarah para a Domino’s, bater aquela pizza de comemoração, a experimentar uma sensação maravilhosa de dever cumprido — consegui traduzir o que a história queria em 2016.

Com o amigo escritor Carlos Barbosa no lançamento do seu livro de contos “O chão que em mim se move”, Salvador, 15/09/16. Foto: Sarah Fernandes

PRESENTE DE CARLOS BARBOSA

Terça, 11 de outubro de 2016, noite. No apê do Edf. Silverstone, das 21h40 às 00h40, o amigo escritor Carlos Barbosa [excelente contista e romancista], solícito, oferece o seu presente ao romance: um relato extenso sobre as suas impressões da leitura [não sei onde foi parar o papel em que ele anotou essas impressões, outro mole que me chateia até hoje!], a apontar erros a serem corrigidos. Aproveito para debater as impressões, e essas três horas dedicadas ao romance se tornam uma revisão valiosa. Valeu demais, Carlos!

No dia seguinte, manhã do feriado de 12 de outubro, véspera da Flica 2016, apê 703-B, escrevo as mudanças apontadas por Carlos Barbosa no original do romance. Foi a 1ª leitura com riqueza de comentários que ganhei de presente para “oroboro baobá”.

Na abertura da Flica 2016, única experiência que tive de assinar sozinho a curadoria das Mesas Literárias. Foto: Egi Santana

ADIÓS, MURALHA

Sexta, 14 de outubro de 2016, seis da manhã. Estou na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano. Acabo de acordar, entro no banheiro, a me arrumar para o 2º dia da Flica 2016. É a 6ª edição da festa e, pela 1ª vez, estou bem aliviado no trabalho. Como havia dispensado o cargo de coordenador de produção [e de elaborar a logística também], sou apenas o curador [das Mesas Literárias]. E um dos donos do evento.

Pousada Convento do Carmo, quarto 105 [o mesmo em que Sarah Fernandes fez a foto que usei como capa do livro “Olhos abertos no escuro”], após relutar bastante [desde o começo do ano], finalmente decido [dentro do banheiro]: adiós, Muralha!

É o 2º e último adeus ao nome que originou o romance. Quando voltar a Salvador, após a Flica 2016, vou modificar o nome do personagem para Montanha, para evitar comparações com Alex Muralha, o [então] goleiro do Flamengo, que foi convocado para a seleção brasileira em setembro passado.

O goleiro Alex Muralha na seleção brasileira sacramentou a minha decisão de dar adeus ao nome “Muralha” para o goleiro do meu romance. Foto: Pedro Martins/MoWa Press [daqui]

Escolho Montanha nessa sexta 14/10/16. Começa com “m”, tem a mesma divisão de letras que Muralha [fundamental que passou no teste do brado tribal MON-TA-NHA!], e um significado mais belo: é uma forma do nosso planeta, e não uma criação humana para dividir [porém, perco o sentido de que Miwa, traumatizada, se isola numa Muralha — quando esse enredo mudou, não houve mais perda e Montanha se cristalizou como melhor opção para o romance].

PS: Abaixo, registros da lindeza que foi a Flica 2016 [publiquei no blog o balanço do curador, leia aqui]

Mesas Literárias da Flica 2016. Fotos: Egi Santana

Fliquinha, a programação infantil da Flica 2016. Fotos: Daniele Rodrigues

Na terça 18/10/16, após dar adeus à revista piauí [não renovei a assinatura e não vou comprá-la mais, após 10 anos a consumindo], à tarde no apê 703-B, faço pequenas correções no romance e modifico o nome de Muralha para Montanha em diversos capítulos.

PS: Não tenho a data registrada, mas foi em 2016 que inseri o bordão “galalau” no personagem Marcelino, quando ele se refere a Montanha.

A Baía de Todos os Santos vista da Feira de São Joaquim, em Salvador, Bahia, registro meu da 1ª reunião Miwa com Gabriela Leite, 29/09/16

MIWA COM GABRIELA

Quinta, 29 de setembro de 2016, manhã. De volta ao Brasil, a diretora e roteirista Gabriela Leite se reúne comigo na Feira de São Joaquim, patrimônio de Salvador. Desde 2015 que ela já conhecia, por alto, a história de Muralha. Como fizemos um excelente trabalho no roteiro do curta “Felicidade”, ela topou o meu convite para avaliar o upgrade do meu romance.

Com vista à Baía de Todos os Santos [foto acima], conto-lhe a história de “Miwa — A nascente e a foz”. Ela se interessa e firmamos parceria para transformá-la em série audiovisual. Então, damos um rolé, adquiro um filtro de barro, e Gabriela faz as suas compras, uma manhã com muito axé!

Via inbox do Facebook, passo as referências visuais que havia garimpado [a víbora que inspirou Makonga, fotos da Allée des Baobabs, etc.]. Daí, após concluir a produção literária do romance, em dois dias [10 e 11/10/16], apê 703-B, dou início ao projeto, começando a elaborar o resumo dos capítulos e descritivos dos personagens [para guiar as escolhas da adaptação].

A diretora e roteirista Gabriela Leite lê um capítulo do romance pela 1ª vez

Na noite do feriado de 12 de outubro, véspera da Flica 2016, apê 703-B, nova reunião com Gabriela, que lê um capítulo do romance pela 1ª vez [o 29, do ritual em Madagascar]. Passa a Flica, manhã da segunda 17/10/16, antes de pegar o voo de volta à França, a diretora vem ao apê 703-B para mais uma reunião: mostro as locações que quero filmar e conversamos mais sobre a história. Há um longo caminho pela frente, e estou muito empolgado em voltar a trabalhar por essa adaptação.

PS: Pauso o processo para poder revisar e finalizar o romance.

Até num domingão de sol [23/10/16], a minha função é revisar editorialmente o romance

REVISÃO EDITORIAL [2ª VEZ]

A 1ª vez que fiz uma revisão editorial no romance foi em jun/15. Relembro: aprendi com o escritor Mayrant Gallo, e consiste em imprimir o original [tem que ser em outro suporte, além do que você escreveu, para facilitar a visualização dos erros e fraquezas do texto], ler com atenção, riscar e/ou anotar as mudanças no papel, e passar a limpo no original via computador.

2016, versão “Miwa — A nascente e a foz” [a utilizar o impresso que Carlos Barbosa leu], na 2ª vez que realizo a revisão editorial no romance, invisto quase 34 horas de trabalho [todo o processo é feito no apê 703-B] em 07 dias embalados [20 a 26/10/16]. Além dos consertos e novas adições, também mexo na estrutura de alguns capítulos [nessa época da revisão, assisti à 3ª e melhor temporada de “Black Mirror”, e continuei lendo “Todos os contos”, de Clarice Lispector].

Dentre as novidades adicionadas, tenho o registro das seguintes:

Na sexta 21/10/16, cap. 4, passo a reclamação do forró “roda-roda” para a voz de um turista.


No domingo 23/10/16, impactado pela beleza da modelo senegalesa Khoudia Diop, viralizada nas redes sociais, insiro, no cap. 8, a informação de que a pele de Mudinho é semelhante à da “deusa da melanina”.


A modelo senegalesa Khoudia Diop. Foto: The Colored Girl [daqui]

A página de dedicatórias do romance “Miwa — A nascente e a foz”

Não tenho a data registrada, mas foi em 2016 que inseri a premissa “filosófica” de “oroboro baobá” também em uma página separada [dessa vez, colocada antes do cap. 1, depois das epígrafes]

Trecho do certificado de registro do romance “Miwa — A nascente e a foz” na Biblioteca Nacional, expedido em 23/06/2017

BIBLIOTECA NACIONAL [3º REGISTRO]

Quinta, 27 de outubro de 2016, apê 703-B. Agoniado para terminar logo, não vou nadar e faço a revisão final de “Miwa — A nascente e a foz”. Trabalho numa longa pesquisa da contabilidade desde 2012 [encontro o erro na contagem dos dias e conserto — ainda não é o acerto final] e a fecho. Pouco mais de nove e meia da manhã, considero finalizado o meu 1º romance.

Imprimo uma cópia do original e organizo os documentos para o registro na Biblioteca Nacional. Depois de almoçar no “pobrão” e de pagar o GRU num caixa eletrônico, volto ao apê 703-B e rubrico as 195 páginas do original [aff, que saco!]. O sócio Marcus Ferreira aparece: assino um contrato de patrocínio da Flica 2016 [triste realidade da produção cultural: o patrocínio é sempre depositado após o evento]. Vamos juntos à sede central dos Correios na Pituba, e eu envio “Miwa — A nascente e a foz” para a Biblioteca Nacional [mais um arquivo de “oroboro baobá” na BN].

Ilustração que fiz a partir da foto de Bernard Gagnon do baobá Renala

De volta ao apê 703-B, após reunião Cali com Marcus, crio uma ilustração [a partir da foto do baobá Renala por Bernard Gagnon] e a publico no blog junto com o post “Emmanuel Mirdad conclui o seu primeiro romance: Miwa — A nascente e a foz” [veja aqui], apenas com os dados apurados e os agradecimentos [diferente de 2015, mais precavido, comento: ainda não tem data para ser publicado].

Post no blog celebrando a conclusão do romance

Começo da noite dessa quinta 27/10/16, compartilho também esse post no Instagram e Facebook [que teve 50 curtidas e interações] — assim como nos anos anteriores, a saga dos “anúncios-vergonha de término do romance” continua [quinze dias depois, mexo no original “terminado”]. Guardo com carinho esses comentários:


PS: Na manhã da sexta 28/10/16, envio o original por e-mail para a diretora Gabriela Leite avaliar.

Todo feliz na manhã do feriado de 02/11/16, trabalhando na série “Miwa” [faço um post no Instagram & Facebook — tonto, ainda não sabia que só se deve publicar algo nas redes sociais depois que passa/termina/concretiza]

ADAPTAÇÃO PARA SÉRIE [1ª VEZ]

Sexta, 28 de outubro de 2016, apê 703-B. Depois de imprimir um original do romance “Miwa — A nascente e a foz”, retomo o trampo do projeto de adaptá-lo para série, elaborando o resumo de seis capítulos. Daí, continuo nessa função por dois dias [29 e 31/10/16], até concluir os resumos na terça 01/11/16 [todo esse processo da adaptação acontece no apê 703-B], quando analiso o que adaptar dos capítulos, decidindo por 03 temporadas com 05 episódios cada.

Terça, 01 de novembro de 2016, tarde. Começo a elaborar a 1ª versão do guia dos episódios, com as sugestões para a 1ª temporada de “Miwa” [retiro o “A nascente e a foz” para ser mais fácil de trabalhar a divulgação]. Daí, por dois dias [02 e 03/11/16], termino esse trampo, com as sugestões para a 2ª e a 3ª temporadas da série.

PS: No post de 02/11/16 [citado na legenda da foto acima], descrevo o clima desses dias: “Uma selfie só pra registrar o trampo que engrenou ontem, e que hoje troquei a praia pela empolgação de criá-lo, e a meta é que, em alguns anos, você possa se entreter e se emocionar com esse produto na sua casa!”.


Na sexta 04/11/16, após enviar a 1ª versão do guia dos episódios para a diretora Gabriela Leite, retomo a chatice de elaborar os descritivos dos personagens. Um porre! Só aguento mais dois dias [07 e 08/11/16] e encho o saco: interrompo o trabalho da adaptação. Prefiro esperar que a parceira Gabriela termine de ler o romance e faça as suas análises sobre a minha sugestão do guia.

Em 04/11/16, postei esta foto com a legenda: “Original impresso do meu primeiro romance, ‘Miwa — A nascente e a foz’, realismo fantástico e histórico, com muito movimento e personagens, a focar na saga da jovem Miwa, que concluí na semana passada. Dos seis romances que pretendo realizar nessa existência, ‘Miwa — A nascente e a foz’ é a estreia”

CONSERTOS DE NOVEMBRO

No apê 703-B, em três dias [08 a 10/11/16], elaboro e monto uma versão do romance no formato “imitação de livro”: a cada página A4, orientação “paisagem”, duas páginas do “livro”; imprimo-as, dobro-as ao meio e mando encadernar na abertura [não é a versão da foto acima]. A ansiedade em ler o romance no papel me faz criar esse formato [a partir daí, passo a fazer sempre].

Na sexta 11/11/16, ajudo a funcionária do armarinho a encadernar a “imitação de livro”. De volta ao apê, começo a ler o premiado “Olhos d’água”, da querida Conceição Evaristo [atração da Flica 2016, contei-lhe rapidamente a história de Miwa e ela se interessou em ler; pensei em convidá-la para a orelha do meu romance, mas depois achei que eu não estava à sua altura]. Sou tão impactado pelos contos de Conceição, que não consigo trabalhar à tarde, só ler.

Flagrei esse encontro na Flica 2016 e descrevi assim: Uma foto que representa, para mim, o imenso prazer de realizar a Flica: Milton Hatoum, Ana Maria Machado e Conceição Evaristo juntos em Cachoeira. Três pilares da nossa literatura. Bravo!

No sábado 12/11/16, quatro da tarde, apê 703-B, reflito sobre o romance e, insatisfeito com a ordem dos capítulos finais, decido mexer na estrutura. Manhãzinha do domingo 13/11/16, apê 703-B, antes de ir à praia, executo a mudanças no original [destaco abaixo um trecho de Miwa, que passou do final do 24 para a 2ª parte do 31] — agora “Miwa — A nascente e a foz” chega ao seu formato final, de todas as imagens divulgadas nesse post.


A historiadora Mary del Priore na abertura da Flica 2016. Foto: Egi Santana

PRESENTE DE MARY DEL PRIORE

Segunda, 14 de novembro de 2016, começo da tarde, apê 703-B. Aproveitando o contato que tive na Flica 2016, envio, por e-mail, os capítulos 9, 13 e 16 [os históricos do romance, com a saga de Mbamba e dos seus descendentes] à escritora e historiadora Mary del Priore, para ela analisar e apontar possíveis problemas.

Assumo que foi “um queixo”, pois nem sondei a possibilidade e já saí mandando o pedido, arvorado por um “lembra que te falei lá em Cachoeira sobre uma parte histórica do meu romance que o seu ‘Histórias da gente brasileira’, de certa maneira, me ajudou a compor?”. Sorte que a Mary, elegante como sempre, foi bem gentil e solícita.


Ainda na tarde da segunda 14/11/16, de bobeira, resolvo ler o original impresso do romance e encontro um erro. PQP! Corrijo nos arquivos digitais e me coloco nessa função de reler tudo.

Feriado de 15 de novembro, oito da manhã, e a escritora e historiadora Mary del Priore oferece o seu presente ao romance: envia, por e-mail, as suas impressões e aponta dois erros a serem corrigidos. Fico impressionado com a rapidez da resposta. Yeba! Mary ainda faz uma sugestão: “Para dar mais verossimilhança, o enriquecimento do José poderia vir do tráfico de escravos, que muitos libertos faziam. Veja o livro de João José Reis sobre o Alufá Rufino”.


Na resposta que dei, o meu posicionamento político: “Oi, Mary, bom dia, grato pelas sugestões, me foram muito válidas. Farei as alterações, mas prefiro manter que o José enriqueceu por outras vias, embora tivesse escravos em seus empreendimentos e em casa”. A historiadora lamenta noutro e-mail: “Pena, vc. não arriscar, pois essas ‘descobertas’ da história é que tem que ser reveladas!”.

Na quarta 16/11/16, escrevo no original o presente de Mary del Priore. Daí, invisto mais de cinco horas de trabalho lendo o impresso, anotando as mudanças e consertando os erros no original.

Em 2016, investi 577 horas e 40 minutos em 133 dias para escrever “Miwa — A nascente e a foz”

OROBORO BAOBÁ [13ª VERSÃO]

Quinta, 17 de novembro de 2016, apê 703-B. Pela manhã, termino de ler o original impresso. À tarde, faço os últimos acertos e considero concluída a produção literária do romance “Miwa — A nascente e a foz”, diferente da versão que está com o registro a tramitar na Biblioteca Nacional [assim como em 2015]. Vou até os posts no blog e nas redes sociais, e atualizo os dados.

PS: Nas contas dessa época, investi mais de 80 mil reais em horas de trabalho para criar o romance.

Tonto, invento de anunciar nas redes sociais o começo de “Hybrid”, o meu novo projeto de romance [semanas depois, apagaria a postagem]

HYBRID, ROMANCE

Sexta, 18 de novembro de 2016, entardece no apê 703-B. Sem saber o que fazer depois de concluir “Miwa — A nascente e a foz”, invento de escrever um novo romance. Relembro de um desejo de 2014: transformar o álbum “Hybrid” da The Orange Poem no meu “The Wall” [o filme].

Antes do audiovisual, a literatura. Dou início ao romance “Hybrid”, definindo que cada uma das 18 canções do álbum duplo seria um capítulo do livro, a pensar nos personagens, qual o conflito principal [cogito “solidão”], etc. Na tarde da segunda 21/11/16, apê 703-B [assim como em todos os outros dias dedicados a “Hybrid”], reflito sobre a ordem das músicas/capítulos e defino assim [a corresponder às fases de vida do personagem principal]:

a) Antepassados: “Cuts” [cap. 1] | b) Infância: “Last Fly” [cap. 2] e “Child’s Knife” [cap. 3] | c) Juventude: “The Unquietness” [cap. 4], “One and Three” [cap. 5], “Neither Gods, Nor Devils” [cap. 6], “Dubious Question” [cap. 7], “Homage” [cap. 8] e “8/8/88” [cap. 9] | d) Adulto: “Lost Mails” [cap. 10], “Melissa” [cap. 11], “Wideness” [cap. 12], “The Green Bee” [cap. 13] e “Shining” [cap. 14] | e) Velhice: “Rain” [cap. 15], “Clouds, Dreams” [cap. 16], “Farewell Song” [cap. 17] e “Illusion’s Wanderer” [cap. 18].

A paleta de cores do romance “Hybrid”

Daí, invisto mais de 13 horas de trabalho em cinco dias [24 a 26, 28 e 30/11/16], todos dedicados à pesquisa: referências sobre a cor laranja, o rio Orange, a cidade de Oranjemund na Namíbia, o antílope Oryx, a cidade de Orange na Austrália, o poeta Banjo Paterson, a canção “Waltzing Matilda”, a cultura Bush, a cidade de Orange na França e o seu belo Théâtre Antique d’Orange, a Orange City em Iowa [EUA], a empresa francesa Orange S/A, e várias outras referências sobre locais chamados de Orange [a ideia é conectar esses lugares através dos personagens do romance, que podem ter características híbridas, meio humanos, meio animais/vegetais/minerais].

Publico no Facebook três posts com o material que mais gostei dessa pesquisa: o antílope Oryx, um swagman da canção “Waltzing Matilda” e o teatro antigo de Orange.

O belíssimo antílope Oryx [também chamado de Gemsbok, Guelengue, Órix, Guelengue-do-deserto, Órix-do-cabo, Gemsbuck], da espécie Oryx gazella, nativo das regiões áridas da África Austral, como o deserto de Kalahari, na Namíbia. Foto: Peter Thomas

Segundo a Wikipédia, a foto [sem crédito] é de um australiano “elderly swagman, a man who travelled the country looking for work”. Um swagman é o personagem principal da canção “Waltzing Matilda”, que é, para os australianos, um hino não-oficial do país, hino country, interiorano, da “bush culture” [como uma “Asa Branca” para os nordestinos do Brasil], cuja letra foi escrita pelo “bush” poeta Banjo Paterson, nascido na fazenda “Narrambla”, próxima à cidade de Orange, no leste da Austrália

O sensacional Théâtre Antique d’Orange, sudeste da França. É um dos teatros romanos mais conservados do mundo, patrimônio mundial da UNESCO. Foto: L. Boudereaux

Engraçado que, dezembro chega, e eu engaveto “Hybrid” em prol de outros trabalhos: o desenvolvimento de uma parceria com o comparsa Carlos Henrique Schroeder para realizar festivais literários pelo país [um festival latino-americano, um de best-seller, um de literatura policial e uma proposta de franquia internacional com sede na Amazônia], e a organização de uma antologia de poemas do meu pai Ildegardo Rosa [só desengavetaria “Hybrid” em abr/17].

Via inbox do Facebook, em 30/11/16, Gabriela Leite avisa que está lendo o romance e me pede paciência para o nosso projeto de série

DEZEMBRO ROSA

No final de novembro, começo a fazer a revisão editorial de contos do amigo escritor Wesley Correia, e aproveito para pedir que conheça o meu romance; solícito, ele se compromete a fazer uma leitura crítica, por amizade [deixo uma cópia do original nas suas mãos em dezembro]. A escritora e professora Mônica Menezes também aceita ler “Miwa — A nascente e a foz” e criticar [assim como fez o seu companheiro Carlos Barbosa]. Ou seja, boas novas em 2017 — última revisão a tempo de participar do Prêmio Sesc de Literatura.

E dezembro? Trabalho na organização da antologia póstuma “Mestre Dedé — O andarilho da ilusão”, do meu pai Ildegardo Rosa, e não consigo arrumar um novo sócio [tomei vários “nãos” ou indiferença] para a empreitada de festivais literários com Carlos Henrique Schroeder [firmamos que seria uma parceria entre empresas: a Design Editora, de Schroeder & sócio João Chiodini, com a minha nova produtora — ficou para 2017].

Bom, e dezembro? O fim. Na sexta, 09 de dezembro de 2016, esgotado pelo insucesso, resultados fraquíssimos, na produção da minha carreira literária, decido mudar de postura. Excluo o Instagram e o Twitter. Faço uma limpa no Facebook. No domingo 18/12/16, escolho descartar o Mirdad e passo a assinar como Emmanuel Rosa [o meu nome não será maior do que eu posso fazer por ele — sou apenas mais um]. Na sexta 23/12/16, publico o último post do blog [“O motivo (...) é que não assinarei mais como Emmanuel Mirdad, e não tem lógica manter um canal de comunicação vinculado a esse nome”] e excluo o site www.mirdad.com.br. Assumo uma nova postura virtual: silêncio.

PS: O estopim dessa “crise” foi uma postagem do escritor Alex Simões no Facebook, estimulando que as pessoas comentassem sobre obras e autores baianos; foram muitas referências sobre diversos autores, e ninguém se lembrou de mim ou citou algum livro que lancei.

Nascer do sol na costa da Bounty Bay, Pitcairn Islands. Foto: Tony Probst

UM ROMANCE EM PITCAIRN ISLANDS

Resumo do dezembro/2016: curto o show de despedida do Black Sabbath no Rio [a cantar, em uníssono, cada nota dos riffs de Tony Iommi], monto a antologia do meu pai, assino a Netflix, viro Emmanuel Rosa, apago o site, interrompo o blog, entro na fossa e... “passo” o Natal nas Ilhas Pitcairn.

Sexta, 23 de dezembro de 2016, tarde. No apê 703-B, em vez de retomar “Hybrid”, invento de pesquisar assunto para os próximos romances que pretendo escrever. E não é que dá certo? A sincronia me revela a história do motim no Bounty e Pitcairn Islands, o último país do mundo [o mais remoto].

Entrada da ilha principal do país Pitcairn Islands [até a publicação desse post, eu nunca visitei] via Google Street View [visite aqui]

Quadro “The Mutineers turning Lieut Bligh and part of the Officers and Crew adrift from His Majesty’s Ship the Bounty” (1789), de Robert Dodd [info aqui]

Bingo! Fico completamente fissurado pelas histórias! Por sete dias sem parar [23 a 29/12/16], pesquiso e garimpo o que posso encontrar [via São Google, é claro!] sobre as Ilhas Pitcairn e o famoso motim do Bounty [paralelo à resolução da pendência de finalmente assistir à fodástica série “Breaking Bad” e à leitura da biografia dos Romanóv]: baixo textos, assisto a documentários [“Take me to Pitcairn”, “Sharks of Lost Island” e “Trouble in Paradise: The Pitcairn History”], compro vários livros em sebos internacionais [1ª vez que faço isso] e começo a elaborar o argumento do romance que farei no Pacífico Sul, logo após “Hybrid”.

Arquivos que garimpei na pesquisa para o romance nas Ilhas Pitcairn

Os livros que comprei para a pesquisa do romance nas Ilhas Pitcairn

A sensacional biografia “Os Románov”, de Simon Sebag Montefiore [iniciada em 19/12/16 e terminada em jan/17], de onde retirei o nome do romance nas Ilhas Pitcairn

AGRADECIMENTOS 2016

Dedico o romance à mãe Martha Anísia, à irmã Kátia Moema e à primeira leitora Sarah Fernandes. Saúdo a memória do pai Ildegardo Rosa (1931-2011), do professor André Setaro (1950-2014) e do escritor Hélio Pólvora (1928-2015).

Tata Madiba, sem o teu exemplo, não haveria Miwa. Nelson Mandela eterno! Aaah! Dalibhunga!

Pelas dicas, palpites e orientações, agradeço a: Sarah Fernandes, Carlos Barbosa, Mary del Priore e Flávio Bustani (2016); Victor Mascarenhas, Fabrício Mota, Mayrant Gallo, Filipe Sousa, Daisy Andrade, Elieser Cesar, Márcio Cavalcante e Lorena Hertzriken (2015); Tom Correia, Sara Galvão e Gustavo Castelucci (2014); Darino Sena, Ivan Dias Marques, Tabajara Ruas, Aurélio Schommer e Carlos Henrique Schroeder (2013); Ana Gilli (2012).

Dos livros lidos [durante o processo de escrita e fora dos dias de trabalho no romance] em 2016, são estes acima os que eu considero como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor

CONTABILIDADE 2016

Em 2016, investi 577 horas e 40 minutos em 133 dias [em janeiro, abril a junho, agosto a novembro] para escrever “oroboro baobá”.

10ª fase
07h e 20min | 02 dias
Janeiro de 2016
[Romance “Uma porta fechada para o inútil” — incompleto]

11ª fase
570h e 20min | 131 dias
Abril a Junho + Agosto a Novembro de 2016
[Romance “Uma porta fechada para o inútil”]
[Romance “Muralha”]
[Romance “Miwa — A nascente e a foz”]

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